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O QUE SE HERDA >> Carla Dias >>


Relógio. 

Não que seja contra a tecnologia. É que relógio de pulso tem história e ele não sabe como desfazer a conexão, tampouco se deseja fazê-lo. Não são apenas as horas que ele confere no seu aparelho de medição de passagem do tempo, objeto mestre em exercer poder sobre o ser humano, nascido em 1907. 

O objeto, não o ser humano, que, neste caso, nasceu em 1938.

Há uma série de acontecimentos pontuados por esse pequeno maquinário, que, às vezes, parece mais com um álbum de fotografias. Herdou o tal do pai, um homem dedicado a manter a ordem, não apenas das agendas. Tudo nele funcionava pela engrenagem da organização e da lógica. Tudo nele era silêncio e agudez no pensamento. 

Quando criança, costumava observá-lo, tentando adivinhar os pensamentos dele. Sabia que havia mais na cabeça do pai do que um chapéu, graciosamente ajeitado pela sua esposa, antes de o marido sair para o trabalho.

Com o tempo, aprendeu alguns rituais com o pai, mas sem que ele efetivamente o ensinasse. Eram gestos que marcavam uma coreografia de silêncios, pontuados por suspiros de modulações diversas, que diziam tanto, que ensinavam tanto, que abrandavam tanto. 

Tinham suas diferenças e discutiam por bobagens que, vez ou outra, transformavam-se em troca de fervorosos pequenos desacatos. Mas era quando o pai se aproximava, colocava a mão sobre o ombro do filho, olhava nos olhos dele e dizia “está na hora”, que seu coração batia mais rápido e ele engolia a raiva e todas as palavras que desejavam, com toda a empáfia que cabe aos destemperados, escapar pela boca dele. Esse momento de exaspero emocional, tão raro entre eles, era marcado pelos ponteiros do relógio de pulso do seu pai, que ele observava na duração do gesto dele, da curta frase de efeito, pouco antes de ele escorregar a mão pelo braço do filho, e então, tocar leve no rosto dele, abrindo aquele sorriso que só aparecia em momentos em que, sabiamente, o pai encerrava discussões sem fundamento, resultado de dias complexos, cansativamente destruidores da paciência de ambos. Então, o pai seguia para seu quarto, para escutar seus discos.

Herdou o relógio do pai. Com esse pequeno artefato, contador afinado de tempo, projetou sua vida, estabeleceu objetivos, descobriu paixões, enveredou pelas ousadias, preencheu agendas, folheou anos, escutou canções. Viveu, mas de tal forma, que o tempo passou sem que ele se desse conta do quanto.

“Ótimo chapéu”, o filho costuma dizer, a cada vez que ele veste outra herança do pai. Puído, sim. Desagradável ao olhar, não. O pai sempre cuidou muito bem de suas poucas riquezas, mesmo elas valendo nada no mercado. Era riqueza de prender história no tempo, muito pessoal, quase identidade.

O filho ajeita a gravata dele, sorrindo aquele sorriso que lembra o de seu próprio pai, que era um regalo em momentos tão complexos, que não fosse a sabedoria dele de encerrar o assunto, teria sobrado nada do afeto entre eles para ser compartilhado. Sorriso que resolvia conflitos, agendava uma conversa para depois, quando ambos estivessem mais calmos. Severo, sim. De poucas palavras, sempre. Ausente, nunca.

O filho coloca o relógio no pulso dele, enquanto conta uma história sobre como seus amigos conseguiram ingressos para o show de uma banda incrível, depois de esgotados. O filho não usa relógio de pulso, acha bobagem, porque o celular resolve tudo em relação ao tempo. Ele entende, que é homem que nunca foi contra as mudanças e evoluções apadrinhadas pelo tempo que passa. 

O menino, já não tão menino assim, gosta de ajudar o pai a se aprontar para a caminhada da semana. Gosta desse tempo para escutá-lo compartilhar assuntos sobre os quais ele não sabe perguntar. Porque, nos dias de hoje, há tanto mais acontecendo simultaneamente com as pessoas. Há esse ritmo frenético, em que parece necessário se viver tudo de uma vez, registrar o máximo, e, então, guardar esses registros, essas memórias, em gavetas raramente acessadas. 

O relógio não funciona há um bom tempo. Ele entende, porque o tal nasceu em 1907. Mais de século de nascimentos, acontecimentos, renascimentos, mortes. Quando o relógio parou de funcionar, há algumas semanas, o filho prometeu que arrumaria alguém que o consertasse. Ele não quis, disse que naquele relógio moravam memórias e que não precisava mais que ele trabalhasse, já que ele mesmo não precisava mais ir para o trabalho. 

Ainda assim, todos os dias ele usa o relógio.

A mente vem lhe pregando algumas peças. Os olhos se negam a aprender com as lentes dos óculos. Os ossos andam mais fracos do que deveriam. Então, ele tem passado mais tempo em seu quarto, deitado em sua cama, escutando discos que também herdou de seu pai, que adorava música.

Sempre que chega aquela canção, ele toca o relógio, pensa no pai com mais emoção do que de costume. Era algo que o pai fazia e que abrandava aquele insistente silêncio: escutar seus discos, jamais deixá-los calados, como ele próprio ficava.

A mãe sempre foi alegre, falante, adorava ter amigos e encher a casa com eles. O pai, sempre silente e taciturno, não tinha amigos, a não ser a esposa, quem considerava a melhor amiga que alguém poderia ter.  Durante as reuniões com os amigos dela, o pai costumava se esconder no quarto para escutar seus discos.

A mãe resistiu, mas não foi o suficiente. Um dia, quando ele e o pai estavam fora, ela fez as malas e partiu. Não voltou mais, tampouco mandou notícias. Desapareceu de um jeito para lá de desaparecido. Passou a inexistir.

Depois de acalmar o filho, explicar que não havia explicação, que ficariam bem. Depois de o menino sossegar, silenciando feito ele, o pai colocou o disco na sua vitrola e eles se deitaram na cama, um ao lado do outro, deixando a música falar por eles. 

Então, aconteceu de, pela primeira vez, ele escutar o pai cantar. Desafinado, coração partido, voz trêmula de choro contido. Naquele momento, ele entendeu que deveria ter ficado com o pai. Entendeu que aquele homem passaria a inexistir, a mãe não tivesse deixado o filho para trás.

Durante anos, eles se deitaram naquela cama e cantaram aquela canção. Primeiro, com o coração pesado pela ausência da esposa e mãe. Então, porque achavam mesmo aquela uma ótima canção. Tornou-se um ritual, que se estendeu até a morte do pai.

Antes de o pai morrer, apresentou a ele uma das suas canções preferidas. Ele a escutou, silencioso, ar grave, como se tivesse se mudado para dentro dela. Então, sorriu, maravilhado, e disse: "está na hora... precisamos de uma nova canção". Não, eles não descartaram a canção eleita, na partida da mãe, apenas incluíram uma que era somente deles. 

“Está na hora”, a voz do pai ecoa do passado. Ele sabe... Fechar a conta, os olhos, o tempo. “É cedo”, o filho diria, para consolar a si mesmo. Mas está na hora de abrandar, de se render, de compreender que não há o que ser feito, além de aceitar o tempo.

Ain't no sunshine when she's gone
It's not warm when she's away
Ain't no sunshine when she's gone
And she's always gone too long
Anytime she goes away

Um relógio de pulso cheio de histórias e canções atemporais, que cabem em tantas declarações.

Está na hora de as horas esgotarem. De o tempo dormir.

Ain’t No Sunshine | Bill Withers

Muitos conhecem Ain’t No Sunshine com Stevie Wonder, mas eu prefiro essa, com Bill Withers, também compositor da canção. Ele morreu em março de 2020. Partiu deixando muitas canções para enfeitar nossas vidas. Por ele e por elas, eu serei sempre grata.

carladias.com

Comentários

branco disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
branco disse…
carlinha, isso é obra prima!!!!!!
não vou macular com um tolo comentário.....
Carla Dias disse…
Branco, você sempre me honra com seus comentários. Eles nunca são tolos. Obrigada. Beijos.