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PEQUENA CONFUSÃO >> Sergio Geia

 

Foi um lampejo de reconhecimento, uma nesga azul num céu de tempestade. Logo as nuvens escuras cobriram tudo, deixando o céu monocromático, o primeiro pingo pintou a calçada, o aguaceiro caiu. 
 
Vou lhe contar a história, mas antes preciso que saiba uma coisa: há situações que se me apresentam, que não sei como resolvê-las. Para qualquer um é tolice, nada que uma boa correção não resolva. Para mim, não. Ocorre que deixo passar o momento e aí acontece como uma bola de neve, ela cresce, como também se agiganta minha incapacidade de resolver. Mas vamos à história, você vai entender. 
 
Certo dia, caminhava. Um conhecido veio até mim com um cartão na mão. Um esclarecimento: somos apenas conhecidos de caminhadas. Alguns esbarrões, o trivial bom-dia, nada mais. 
 
Entregou-me o cartão e disse que contava comigo. Era um convite que dizia assim: 
 
Prezado Paulo. Churrasco na casa do Luisão. Dia 12, às 12h. Levar bebida. 
 
Estávamos no fim do ano, era uma confraternização. 
 
Entendi que meu conhecido me confundia. Prezado Paulo, que Paulo? Situação muito comum em minha vida. As pessoas me confundem o tempo todo. Uma vez, no velório da mãe de um amigo, uma jovem apareceu, beijinho no rosto, pergunta das crianças, conversa vai, conversa vem e a certeza de que eu não era a pessoa que ela pensava que eu fosse. Até tentei no início puxar da memória. Não veio. E corrijo o mal-entendido? Nada! Disfarcei, ela não percebeu. Um constrangimento que quase teve complicações quando ela saiu e depois voltou com o marido. 
 
Certamente que declinei o convite. Não dei as caras no tal churrasco no Luisão. 
 
O problema é que depois do convite para churrascar, em nossos esbarrões cotidianos, o bom-dia sempre vinha acompanhado de um tal de Paulo. Bom-dia, Paulo! Eu respondia, bom-dia e pernas pra quem tem. Como disse, poderia resolver a confusão, Amigo, eu não sou o Paulo, sou o Sergio. Se o tivesse feito logo da primeira vez, evitaria constrangimentos. 
 
Semana passada, contudo, aconteceu uma grande e maravilhosa novidade. De longe o avistei, cumprimentando-o com a mão. Para minha surpresa ele berrou: 
 
— Bom-dia, Geia! Sergio Geia! — e me acenou com a mão. 
 
— Bom-dia! — eu respondi com a mesma potência de voz. 
 
Encasquetei. Será que amigos o alertaram? Será que alguém o interpelou, ele não é Paulo, é o Sergio Geia, aquele das crônicas. Será? 
 
Não sei. Confesso, no entanto, que fiquei contente pelo arranjo, sem necessitar de minha intervenção. Sentia que tudo voltara ao lugar. Até fiquei com vontade de indagar conhecidos ou quem sabe o próprio sobre a correção de nome, mas fiquei sem jeito. 
 
Passada uma semana, porém, esbarrei com o amigo de novo. O cumprimento, que esperava música para os ouvidos, veio como decibéis de britadeira: 
 
— Bom-dia, Paulo! 
 
Não entendi. O que poderia ter acontecido? Comecei até a duvidar sobre o que ouvira semana passada. Seria alucinação? Ou outro amigo esteve por perto e eu não percebi? 
 
Hoje, a mesma saudação: 
 
— Bom-dia, Paulo! 
 
De modo que me dei por vencido. 
 
Para o amigo de caminhadas eu serei Paulo, o Paulo que caminha e falta a churrascos.

Comentários

Anônimo disse…
Adorei. Parabéns Paulo kkkkkk