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IDADE >> Whisner Fraga

Ele estica a vista, procurando a faixa.

O carro relincha e o homem atravessa a rua.

Um sol rosa vai desocupando o dia.

O homem é velho, mas alcança a outra calçada.

Ele está sem o chapéu. A julgar pelos indícios na testa, raramente sai sem o chapéu.

O velho passa por um estacionamento e está no supermercado. Comprará ovos, azeite e macarrão. Um vinho suave também.

O velho se demora na seção de xampus, mesmo tendo os cabelos ralos e curtos. Perto, uma mulher pinça um condicionador. Ele diz que não adianta, que nada adianta. Ela se sobressalta, mas o assunto não evolui.

Tenta o calor. O calor é sempre um tema que todos dominam. Até que desiste.

Dali a pouco, quem sabe a novela e o sono avassalador antes do primeiro comercial.

Parece gostar do caixa. As filas longas lhe dão oportunidades de novos palpites, a iminência de outras vozes.

Alguns minutos e está novamente na calçada, prestes a pisar a faixa. Um carro para, espera que o velho cruze com segurança.

Os passos lerdos vão puxando toda aquela vida.

Ele segue rumo ao portão. Já é noite.





Comentários

Albir disse…
Quem para de produzir pode ainda estar presente, mas perde a voz e voto.
Albir disse…
*perde direito a voz e voto.
whisner disse…
Albir, perde direito a tudo, inclusive a uma aposentadoria digna.
Zoraya Cesar disse…
Whisner, não vou mais te ler no domingo à noite. Suas últimas histórias têm mexido demais comigo. Vou lê-las devagar, na 6a de manhã, para poder digeri-las acordada durante a faina do dia. De noite elas ficam me assombrando. Bom demais, como sempre.