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LUGARES ONDE NUNCA ESTIVE >> Carla Dias >>


Acabei de ganhar um chiclete. Não qualquer chiclete. É um chiclete que foi trazido de Israel. O presenteador, quem o trouxe da sua viagem, disse que era muito bom. Ele estava certo. O chiclete israelense é uma delícia. Ele veio com uma figurinha, lembrando-me de quando não faltava chicletes na minha bolsa, tampouco figurinhas que acompanhavam chicletes.

Há muito tempo eu não mascava chiclete delícia, nem dobrava e redobrava figurinha de chiclete.

Há muitos anos, eu ganhei uma garrafa de vinho. Um amigo o trouxe dos Estados Unidos e havia algo especial a respeito dele, pois se tratava de um afeto que temos em comum. O vinho era da The Dreaming Tree Wines, de Sean Mckenzie e Dave Matthews, da Dave Matthews Band. Quem me conhece sabe que adoro a banda, acho a música deles demais e viajo léguas com as letras do Dave.

Entrei em uma viagem qualquer e decidi que só beberia aquele vinho quando conhecesse o Dave Matthews. Claro que, com o tempo, e o delírio no seu devido lugar, troquei por quando eu for a um show da banda. Mas veio o roteirista do destino e tirou de mim a tal garrafa.

Fiquei sem garrafa charmosa e sem o vinho.

Ano passado, uma amiga que mora nos Estados Unidos veio para o Brasil decidida a me dar uma segunda chance e trouxe, de presente para a minha pessoa, uma garrafa de vinho da The Dreaming Tree. Bebi o tal no primeiro dia desse ano. A garrafa, linda que só ela, hoje enfeita um móvel, lá na minha sala.

Ainda sinto saudade da que se perdeu por falta de talento do roteirista de biografias em proteger garrafas de vinho.

Sabe aquela furada de não espere uma situação apropriada para usar aquela roupa nova? Ela também serve para garrafas de vinho, abandono de projetos e declaração de amor improvável.

Na parede da minha sala, vive um quadro com a imagem de um barracão. Fotografia melancolicamente linda, que uma amiga tirou, lá na França, onde ela mora. Eu gosto daquela imagem, que ela leva meus pensamentos para dar umas voltas com o imaginário. Às vezes, paro em frente a ela e tento reconhecer, amparada pelo pode ser, enxergar como é o lugar onde mora aquele barracão.

Em um porta-retratos, morador da mesma sala acima citada, vivem dois coalas, vindos direto da Austrália. Acredito que eles se deem muito bem, então não interfiro na divisão de morada. Agarram-se, cada qual a um lado, em uma moldura colhedora de imagem de criança querida.

No mesmo andar da estante, moram Pinóquio e Pinóquio, gêmeos com tendência à escrita, que acho que são brigados com os Pinóquios mais velhos, seus primos. Um dos mais velhos mora na área de serviço. Ele é daquele tipo que não vive sem uma paisagem. O outro, bom, ele me parece mais dos observadores, então mora em uma parede, logo abaixo do quadro francês, mais para a direita. Ele tem jeito de que adora aquelas edições do almoço lá em casa que ofereço aos amigos.

Assim como a imagem do Coliseu, que hoje reina em uma parede do quarto que encaro, antes de dormir, todos os Pinóquios vieram da Itália. Acho que já não se davam muito bem lá, porque cada um veio em uma viagem diferente. Quer dizer, os gêmeos vieram juntos.

Um amigo, que não encontro há muitos anos, é um apaixonado por fotografia, tão apaixonado quanto é pela natureza. Foi com ele que comecei a sentir um pouco do que era encontrar lugares e criaturas pelo mundo. A forma como ele falava das imagens captadas em fotografia era um tíquete para uma viagem imaginada, mas nem por isso menos marcante. Havia histórias atreladas àquelas imagens. Na minha sala, na prateleira abaixo da dos coalas, vive uma fotografia dele, ilustrando majestosa um calendário metálico permanente. É olhar colhido em Fernando de Noronha. O mar tomando o cômodo.

Ontem, um amigo me contou que foi finalista em um concurso internacional de fotografia, que resultou na exposição Powerful Compositon, que foi levada à Xposer Pop Up Gallery. Victor estava muito feliz, o que me deixou feliz, assim, por tabela. Eu já tinha usado uma foto dele para ilustrar uma das minhas crônicas – confira clicando aqui – e sabia que seu olhar era capaz de alcançar lindezas.

Uma foto vencedora de um concurso de uma plataforma dedicada às pessoas que adoram fotografar, que compartilha essas imagens por meio de exposições virtuais e em galerias físicas em diversas partes do mundo. A foto que ilustra a crônica de hoje foi tirada em Veneza, Itália, e exposta em uma galeria em Amsterdã, Holanda. Ela foi captada pelo olhar de um brasileiro.

Ao encarar aquela imagem, vieram todas as viagens que já fiz sem ter saído do meu aqui. E acontece de isso ser possívelporque alguém se lembrou de mim. Viajei também por meio da fotografia do Victor, e me dei conta de que, sim, o mundo é muito maior do que imaginamos. E, sim, ainda bem que há pessoas capazes de diminuir distâncias, de ampliar horizontes, de inspirar histórias.

Eu, particularmente, imaginei meus Pinóquios aos suspiros soltos, sentados naquele píer, encarando a ilha mais adiante, lá em Veneza. Fazendo as pazes sem que palavra fosse pronunciada. O quadro do Coliseu nos braços do mais sonhador deles, o tal decidido a devolvê-lo ao lugar ao qual o anfiteatro pertence.

Habito alguns lugares onde nunca estive. Atrevimento meu, alguns pensam. Eu não me importo e faço as malas sempre que alguém me ajuda a lembrar de que o mundo é mais, é além, é tanto.

É muitos e nele cabem diversos.


Imagem © Victor Nigro


carladias.com
talhe.blogspot.com

Comentários

branco disse…
o mundo fica muito mais bonito sob o seu olhar.
Albir disse…
Você vai aonde quer, né, Carla? E parece não ter problemas com o preço das passagens e dos hotéis!
Carla Dias disse…
Branco, ah, que eu gosto mesmo dele mais bonito. Nem sempre é possível, mas vamos lá. :)

Albir, sim, o espírito manda e eu vou.
Zoraya Cesar disse…
Carla, se o mundo fosse feito de acordo com seus textos, seria certamente muito, muito muito bom. E lindo. E poético. E sensível. E...