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CADA UM COM SUA EMERGÊNCIA >> Clara Braga

Recentemente tive um problema de saúde e precisei ir à emergência do hospital. Emergência é sempre um saco, muito cheia, sem o especialista necessário e você leva mais de hora para ser chamado para ficar dois minutos olhando para a cara do médico.

E dessa vez não foi diferente, esperei 1hora e 40minutos até ser atendida e não precisei ficar nem 5 minutos com a médica. Ela me avaliou e mandou logo para a sala de medicação. Como a sala estava muito cheia ela pedia que os pacientes entrassem sozinhos e os acompanhantes aguardassem de fora olhando pela enorme janela de vidro que havia na frente da sala.

Lá fui eu, entrei e fiquei conversando por mímica e whatsapp com minha mãe que ficou olhando pelo vidro. Minha mãe é sempre muito tranquila, se sentou de forma que eu só via sua cabeça, quase se perdendo entre a quantidade de pessoas que aguardavam em pé e coladas no vidro.

Vinte minutos se passaram e nada da minha medicação chegar. Conforme o tempo ia passando, as pessoas lá fora pareciam ficar mais agoniadas e aglomeradas. Comecei a olhar as pessoas que aguardavam medicação e relacionar o estado do paciente com a ansiedade do acompanhante. Aquela moça chorando alto com a mão na barriga devia estar acompanhada daquele cara em pé roendo todas as unhas da mão. Aquela outra meio apática, parecendo que ia desmaiar devia estar acompanhada do cara que vira e mexe passava a mão na cabeça e suspirava de tensão. Fui fazendo as relações enquanto mandava tchauzinhos tímidos para a minha mãe que depois confirmou que estava fazendo a mesma coisa.

Trinta e cinco minutos se passaram e eu ainda aguardava. Foi então que observei algo um tanto curioso. Em um certo momento, todos que estavam olhando fixamente pelo vidro suspiraram e fizeram sinal negativo com as cabeças exatamente ao mesmo tempo. Achei aquilo muito estranho e foi então que vi que aquelas pessoas não estavam olhando para nenhum paciente específico, mas para algum ponto acima da minha cabeça. Olhei para cima e, para minha surpresa, descobri que tinha uma televisão pendurada na parede.

Tive que segurar o riso e abandonar minhas relações de estado do paciente com ansiedade do acompanhante. Não que os acompanhantes não estivessem preocupados com os enfermos, mas naquele momento a tensão era a mesma para todos colados no vidro: o flamengo havia perdido um gol aparentemente imperdível.

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