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O DONO DO CLUBE >> Carla Dias >>


Era assassino de profissão.

Vamos combinar, não é a primeira vez que você lê a respeito. Há como citar uns pares de filmes, alguns personagens da realidade e, se bobear, aquele vizinho... sabe quem? Melhor continuar sem saber.

Era assassino de profissão. Ganhava em dólar, porque dólar é dinheiro com valor. Guardava seus dólares, milhares deles, em caixas de sapato, estocadas em um closet de um dos quartos onde vivia com sua esposa e sete filhos. Tinha isso com o número... morava na casa sete da rua sete, seu telefone tinha vários sete e a soma dos que não eram sete dava em sete. Sua esposa foi sua namorada número sete, penou, mas o filho sete veio, temporão, mas veio. Acalmou-se, que temia ficar preso ao número seis. Não gostava do número seis.

Sua profissão exigia disfarce, e não há disfarce mais sólido do que a realidade de uma rotina. Um casamento sem amor, mas com certa cumplicidade. Bater cartão na igreja, ao menos uma vez por semana, comprar sempre a mesma marca de aveia, uísque e calmante. Jogar futebol no grande quintal da casa com os sete meninos que colocou no mundo. Todos com nomes que, encurtados, davam em apelidos compostos por duas letras. Terapia de casal uma vez ao ano, sete sessões. Sexo aos domingos, porque não podia se dar ao luxo de descansar no sétimo dia.

Era bem recompensado pelo seu trabalho. Os contratantes eram loucos por ele. Achavam o contratado detentor de um humor refinado, com altas doses de ironia combinadas a um tom sedutor ao fazer o que ele mais gostava, depois de aveia ao leite, adoçada com gelatina de uva: manipular pessoas. Nesse caso, não importava se as pessoas eram objeto do serviço a ser concluído ou meros passantes pela situação. Pavoneava-se e exercia a função de encantador de sujeitos.

Havia algo que o excitava durante o processo: o olhar da sua vítima. Havia ali uma tranquilidade que não conhecia a opção de fim com desfecho trágico para o tal. Essa ignorância, no dicionário dele representava certa inocência. Ele sempre gostou de provar que inocência é uma grande desvantagem, e perigosamente atraente.

Ele era assassino de profissão, reconhecidamente violento na conclusão do seu serviço. Quando o contratavam, era porque havia a necessidade de tortura. Era também extremamente criativo, o que nunca foi bom para suas vítimas. Elas sempre duravam mais na dor que ele oferecia.

Sentia-se um artista no seu fazer.

Para compor seu personagem, aquele necessário para endossar disfarce, tornou-se dono de mercado. Durante décadas, trabalhou na miúda. Certa vez, um amigo de conveniência – amigos são sempre bons para o disfarce, contanto que não sejam dos curiosos em demasia – queria se desfazer de um clube que vinha gerenciando há anos e que comprovou que ele não nascera para gerenciar estabelecimento que fosse. O assassino, comovido com o desalento do outro, comprou o lugar com três das sete caixas de sapato que moravam no seu closet.

O clube de jazz deslanchou sob sua gerência, que sempre caprichou no trabalho. Odiava jazz, mas se tratava de um disfarce, certo? O clube deu muito certo, reacendeu o desejo dos ouvintes pelo jazz, o que ele nunca irá se perdoar de ter feito, e deu cria. Tornou-se dono de sete clubes, em sete capitais do país.

Foi assim que o assassino de profissão se tornou um reconhecido empresário do setor cultural, o que o elevou ao grau de figura pública muito conhecida, de ser necessário contratar seguranças e trocar as caixas de sapato do closet por um cofre de última geração.

O mais irônico é que ele nunca desejou fama. Gostava do espetáculo que fazia, um a um, no qual pudesse conhecer intimamente as fraquezas da sua vítima. De repente, tudo se tornou grandioso em sua vida. Nunca soube dizer de onde veio essa onda de boa sorte. É certo que ela apenas atrapalhou a sua profissão.

Um homem nem pode trabalhar em paz.

Os contratantes já não queriam mais lidar com ele, que temiam que jornalistas sensacionalistas os ligassem ao assassino celebridade. O serviço foi escasseando, ele foi se envolvendo mais com o clube, um dos filhos até se tornou músico e se apresentou por lá. Houve momento em que sentiu orgulho dele, mas então se lembrou de que odiava jazz, voltando ao seu lugar de homem levando uma vida-disfarce.

Enterrou dois pares de filhos, a esposa, o amigo que lhe vendeu o clube. Durante todo esse tempo, havia uma coisa que ele fazia e que ainda lhe dava o prazer de ser um excelente profissional. Sentava-se à escrivaninha, na biblioteca, um prato de aveia ao leite, adoçada com gelatina de uva a sua frente, e enquanto saboreava sua refeição da noite, lembrava-se de cada pessoa que mandou desse mundo para outro, ou para o entendimento dos que não acreditam em vida após a morte, que ele mandou para valas, quartos de hotel barato, terrenos baldios, covas rasas.

Ficou conhecido como um dos homens mais gentis e generoso nas doações para projetos de estudo da cura de doenças carrancudas, além de exímio empresário do setor cultural. Lembra-se de que, ao receber um prêmio de reconhecimento pelo seu trabalho na difusão do jazz, olhava para o discursador e só pensava de quantas maneiras ele o torturaria, se pudesse.

Não pôde.

Envelheceu e se despiu do seu talento.

Antigos contratantes ainda se atreviam a frequentar seu clube, o primeiro deles, o que deu início ao fim da carreira dele no setor homicida. Claro que nunca falavam sobre os serviços prestados, mas saboreavam os segredos que compartilhavam.

Morreu no dia 7/7/77, aos setenta e sete anos. Enterraram o tal a sete palmos de terra, enquanto o filho, o sétimo da prole, tocava no seu trompete - o número sete da sua suntuosa coleção - um smooth jazz.

Imagem © Paul Colin


Comentários

branco disse…
a magia de 7. muito bom......gostei 70X7
Albir disse…
Assustador. Mais ainda saber que pode, sim, ser o vizinho.
Muito bom, Carla!
Zoraya Cesar disse…
Carla, que diferente de tudo o q vc escreve! (mas o talento é o mesmo!). Amei. Posso colocar um dos meus personagens esquisitos frequentando esse seu clube? Ou interagindo com seu fascinante personagem? Farei referência, claro! Envolvente, estranho e, ainda assim, Carla Dias.
Carla Dias disse…
Branco, sim! A magia do 7. ;)

Albir, vivemos de dar aquela leve maquiada na realidade. Pode ser... Sempre pode ser...

Zoraya, você pode colocar personagens frequentando esse clube, interagindo com o personagem, enfim, o que você quiser, minha cara. O clube é seu.