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VERDE DESESPERO >> Fred Fogaça


Tenho adornado minha casa com urgência. Atulho os cantos de flores e folhagens e cubro o chão de tapetes, escondo as rugas da estrutura com fotos e artes amigas; troco as lampadas frias, muito claras, e privilegio as luzes indiretas. Interrompo passagens livres com cortinas e anteponho às portas, detalhes pendurados na madeira. Faço estantes, crio espaços, embalo os sinais de velhice dos móveis com estampas, apostando o aconchego no espaço que diminui entre as camadas com que cubro a realidade. Mas, longe disso, as paredes rugosas não negam em seu verde certo desespero.


Não estou preso a casa, há sempre opção. Mas a esse ponto da minha solidão por esses cômodos, não são mais só concreto, ferro e madeiras, já partilho o aluguel com as minhas memórias. Não há questão moral que desqualifique alguma falta de sorte,  mas como poderia abandonar os fantasmas de tão fiel outrora? Ainda há questões práticas: com o tempo você se expande em partes que não cabem no seu corpo. Como me desfaria dessa mesa de jantar redonda que data cento e quarenta anos - o vendedor jurou - e conta com quatro cadeiras não adaptadas pra sua altura fora do comum, mas que efetivamente só cabem três? A gente se apega. Não porque custe horas de trabalho (duro), infelizmente inclusive, mas cada defeito jogado pela casa espelha um meu: ou essas estantes envergadas não reproduzem nos seus cantos sujos, lugares que eu também não tenho por onde limpar? Questão de empatia. 


Me falte muito, quem sabe, disposição e dinheiro. Mudar é profundo em sentidos demais. Cogitava inclusive por um reinado maior ao ditador (vide crônica passada), uma jurisdição exclusiva. Concretizei algumas explorações até, mas meu horror à essa subdivisão confusa de cômodos que parece tradicional por aqui foi muito maior que qualquer motivação. (Onde já se viu banheiro na cozinha?). Além do que, minha solidão aqui é comoda: outros entornos, enfeitados ao mesmo modo, me oprimiriam ao estranhamento. Prefiro o conforto de estranhar o que eu quiser.


A busca, no fundo, então, sempre foi ingrata. Fadada ao insucesso por falta do que realmente se quer encontrar. Talvez a questão não fosse que a agulha em sua tremenda desvantagem de proporção, até porque o brilho do seu metal ajuda a entregar seu repouso, mas o fato de que o palheiro nunca conheceu a sua presença. O problema desse verde claro, excitado a um tom de desespero, talvez (ainda), é que nunca soube exatamente o que fazer com ele. Substituiria com o que, afinal? Qualquer dos muitos brancos? A parede, mesmo em sua sobriedade duvidosa, vai seguir intacta.

Comentários

branco disse…
grande Fred. as paredes contam histórias!
tenho certeza do que antes era duvida: se as paredes tem ouvidos, com certeza também a boca não lhe falta.
grande crônica !!!!
Zoraya Cesar disse…
que espetáculo de crônica, Fred! Que sensibilidade em desnudar o apego que temos às nossas paredes, e que lindeza de escrever. Li e reli e me comovi. Cheio de frases pra guardar. Despertou uma leve melancolia, daquelas q olham pra gente, fazem tsc tsc e continuam a nos assombrar. Que beleza de texto!