quinta-feira, 27 de novembro de 2008

DETALHES TÃO PEQUENOS DE NÓS DOIS (OU MAIS) >> Ana Coutinho >>

É incrível como é por pequenas coisas que nosso coração se infla.

Ouvi certa vez que uma pesquisa, feita com pessoas que passaram pela tal quase-morte, dizia que, na hora da partida, as imagens que lhes vinham à mente eram de coisas pequeninas, afetos quase invisíveis do cotidiano. Um jeito de olhar do amigo, um programa de televisão inocente, uma gargalhada numa noite de calor, o avental de cozinha, sempre precisando lavar. A unha do pé torta de seu companheiro, a mão fria na mão quente do seu amor, um vento gelado e um nariz pingando, a voz fina de sua irmã, o beliscão firme de sua mãe.

Talvez, se um dia eu morrer (é que ainda não tenho muita certeza disso), no meu filme de lembranças afetivas tenha uma meia suja que sempre uso em casa, o espirro exagerado de meu pai, a alça do sutien caindo da minha mãe, a gargalhada solta da minha sobrinha. Talvez me lembre apenas de coisas pequeninas e tolas como as noites em que assistia ao Amaury Jr. abraçada ao meu marido, ou o raspar dos pães queimados pela torradeira desregulada. Talvez fique a lembrança doce dos almoços de domingo em família, alguém pedindo pra passar o sal, outro pedindo pra pôr mais arroz, o suco é de que hein, mãe? tem gelo pro guaraná? passa o prato de chuchu? tá bom de frango? mais? quer molhinho? feijão em cima ou do lado?

Mas, ainda segundo a pesquisa, não obrigatoriamente as pessoas mais próximas a você são aquelas de quem se lembrará. Talvez venha à sua mente desconexa o chiado da televisão, a vinheta matinal do programa de rádio que você sempre ouvia, a língua presa do Kassab ou os cabelos repartidos no meio do Galvão Bueno...

Não, não serão as viagens extraordinárias com o seu marido que ficarão na sua lembrança. Serão as conversas ásperas, talvez até monótonas do dia-a-dia: "Que horas você vai chegar?", "Tira o carro da garagem?", "Carrega pra mim?". Serão as lembranças mais afetivas que seu coração trará, como que dizendo como foi boa a sua vida. Como foi terno e amoroso cada despertar suave, ao lado do seu bem, quando um cobria o outro, ou quando um sentia o corpo quentinho do outro, aquele segundo mínimo entre o dormir e o acordar quando, por um milésimo de segundo, você ainda não tem certeza onde está e, no instante seguinte, vê-se ali, na sua zona de conforto, que pode ser um quarto apertado ou o corpo pequenino de seu filho junto ao seu, explicando o porquê de sua coluna estar mesmo tão dolorida.

Porque, no final das contas, é disso que é feita a vida. Das bolhas na mão, do ralinho da pia cheio de comida, do cheiro usual daquele edredom velho, de uma piscadela na multidão.

E se esses segundos bobos, tolos, invisíveis, não forem bons, meu amigo, você está com problemas. Porque a viagem pra Paris ou os cristais swaroviskis do seu vestido de noiva foram detalhes muito pequeninos perto daquela pelinha solta do dedo mindinho do seu irmão mais velho...



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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ana, até que não é uma má idéia você não morrer. As pessoas poderiam contar com suas crônicas para sempre. :) Você passeia muito bem entre o geral e o particular, e isso é uma qualidade dos grandes cronistas.

Juliêta Barbosa disse...

Ana,
O seu coração parece uma casa sem portas e janelas... Sempre aberto as delicadezas da vida. Que bom que você existe! Sorte nossa! Parabéns, seu texto emociona.