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PASSOS [Maria Rita Lemos]


Eu já estava a caminho do trabalho quando o celular tocou. Era Ana, uma amiga querida, avó como eu de dois netos e uma neta. Ela ligou-me exultante, e na manhã nublada que começava eu vi um sol em suas palavras; sorrindo pela voz, ela me contou que ontem, aos 11 meses, seu neto caçula começou a andar: na verdade, deu três ou quatro passos pela sala, em direção à mãe dele, filha de Ana. A alegria foi geral, e se espalhou pela manhã de quinta feira, à medida que minha amiga contava a notícia à família, amigas e amigos próximos. Tive certeza dessa sua euforia quando, poucas horas depois, ao ligar o computador, recebi uma mensagem emocionante de minha amiga, dizendo dos primeiros passos de seu netinho num cartão virtual cheio de ternura.

Muito trabalho me esperava, mas não pude deixar de me lembrar de Ana e dos primeiros passos de Luca, seu netinho, durante alguns minutos de meu dia. Meu pensar perdeu-se no passado, bem passado mesmo, uma vez que Ana e eu estudamos juntas no mesmo Colégio, desde o jardim da infância até o final do curso de Magistério (naquela época, as professoras faziam o 'curso normal'), e acompanhei grande parte da vida dessa amiga, que foi uma verdadeira montanha russa, desde o primeiro namoro e casamento. Um começar e recomeçar incrível, na vida, nos sonhos, na profissão... enfim, eu sempre tive Ana como uma guerreira. Acredito que, quando ela ler esse texto algum dia, reconhecerá sua vida e talvez até se emocione, como eu estou emocionada em escrevê-la. Comparei os primeiros passos de Luca aos de Ana, e, por que não, aos passos de todos nós, os primeiros, em cada etapa de nossas vidas. Estou convicta de que essas passadas, trêmulas e incertas, que nossas crianças arriscam para começar a grande marcha de suas vidas, são apenas as primeiras de muitas outras jornadas, e para isso atenho-me, outra vez, a Ana. Não sei como foram seus primeiros passos em bebê. Mas sei como foram seus passos quando ela fez sua primeira comunhão, aliás, na mesma turma que eu. Lembro-me de que os passos que ela deu, no grande salão do colégio, pelo braço de seu pai, também foram hesitantes e inseguros, menina tímida que sempre foi. Depois, veio a formatura, e outra ainda... e os passos se repetiam. Solenes, sérios, assistidos por muitas pessoas que sorriam, ao vê-la passar.

O grande momento dos passos de Ana, aliás, os passos decisivos foram os que a conduziram, novamente pelo braço do pai, ao altar, para unir sua vida à de Vítor. Novamente ante os olhares admirados de amigos e parentes, Ana marchou serena e solenemente pela nave, os olhos brilhantes chegando com a alma à frente do corpo, de encontro ao homem que amou por dez anos, até que um acidente o levou para sempre de sua vida. Estive com minha amiga nessa noite de dor, acompanhei seus passos quando ela caminhava (ah, os passos, novamente...), dessa vez lenta, mas dolorosamente, em direção à última morada do corpo daquele que foi seu grande amor.

Felizmente, a vida continuou a fazer sua parte. O tempo encarregou-se, como geralmente faz, de secar as lágrimas, e outros amores chegaram aos braços carinhosos de Ana. Ela emocionou-se, novamente, com os passos que deu para conduzir seu filho caçula na formatura do colegial: eu estava lá, no grande clube, e a vi caminhar orgulhosa e sorridente, com a mão apoiada no braço do filho querido. Ana casou-se novamente, dessa vez sem grandes passos nem pompa, mas não sem menos felicidade. Foi e é muito feliz na escolha que fez, creio que dessa vez para sempre, como ela sempre diz, que envelhecerá ao lado da pessoa que a ama e a quem ela ama também, com muita ternura.

Enfim, fica aqui, para Ana e meus leitores e leitoras amigas, essa reflexão de hoje: quantos 'primeiros passos" já demos em nossas vidas? Quantas jornadas começamos, de quantas voltamos atrás, talvez corajosamente, ou quem sabe por temor de continuar a caminhada? O bom da vida, com certeza, é que sabemos que, a cada manhã, novos passos nos esperam. Haverá um dia, certamente, em que nossos passos serão os últimos, pelo menos nesse plano da matéria. Louvado seja Deus por nos dar essa certeza, e ao mesmo tempo nos poupar de conhecer esse dia... Só peço, a esse mesmo Deus que guiou os primeiros passos nossos, em todas as caminhadas, que os últimos movimentos sejam em direção à alegria. Que estejamos emocionadas(os), nesse momento solene, tanto quanto estávamos enquanto caminhávamos em direção à pessoa amada, que nos esperava para a jornada que seria partilhada, dali em diante. Que nossos últimos passos, a caminho da eternidade, sejam serenos e tranquilos como quem sabe que andou pelos caminhos do amor, da verdade e da justiça.

Terminando, Ana querida, aí vai meu tributo pelos primeiros passinhos de Luca. Não sei se poderei vê-lo nessa nova etapa, antes de seu aniversário,na próxima semana: mas, certamente, nesse dia lá estarei, para beijar muito esse menino doce. Que, certamente, será tão guerreiro quanto as mulheres de sua vida, particularmente sua mãe e sua avó.


Baby Steps, Tom Grill; Tired Woman Sitting on Stairs, M. Thomsen; Woman Climbing Stairs, M. Thomsen

Comentários

Bom texto, Maria Rita! A gente está sempre dando os primeiros passos em alguma coisa.
Anônimo disse…
Obrigada, querido. Fico feliz por ter gostado, sua opinião é vital!
Beijo, meu melhor.
Maria Rita

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