sábado, 29 de novembro de 2008

TANGO NA MADRUGADA [Sandra Paes]


Noite fria. O inverno prenuncia sua chegada de forma mansa e firme. Gosto desse clima, ar mais refinado, como se minh’alma se afinasse com essa tonalidade. Respiro melhor, me sinto mais leve e mais entregue de forma geral. Passeio na madrugada pelas ruas vazias e sinto a força da liberdade que esse gesto envolve. Aperto um botão e entra o Tango de Piazola para me acompanhar. Os acordes do bandoneon tocam com requinte meu sentimento de tristeza e paixão.

Para mim o tango é isso: a via mais curta entre um sentimento e outro. Quem o faz e concebe sabe dessa ternura louca que habita as ruas nas madrugadas, e é capaz de vibrar por qualquer coisa em silêncio, apenas no arfar de uma respiração intensa, soltando o fog que encobre o próprio ser. E nesse contexto me pego sorrindo, cúmplice única do piantal revelado na canção. O louco que carrega uma bandeirola nas mãos, como um táxi livre, a correr pelas ruas.

A melodia e a voz de Amelita Baltar se mesclam perfeitamente e me vejo pelas ruas de Buenos Aires, quaisquer bons ares, como esse que agora respiro, e me sinto livre e louca, no melhor de sua tonalidade e vibração. Pronto: me pego feliz, sem mais nem porquês.

De repente me sinto livre do manicômio que envolve a todos, todos os que seguem à risca as obrigações ditadas pela obviedade da sobrevivência e das normas impostas a todo que se diz cidadão e trabalhador — combinação muito aplaudida nos tempos de hoje em dia, moldura dourada que envolve muitas das milhares de vidas humanas por aí afora, correndo atrás de ganhar a vida, com esforço, com sacrifício, com empenho, como se ganhar tivesse que ver com toda essa batalha invisível em torno do tempo de viver. E eu a ouvir na estrada o canto rouco que diz: queira-me assim piantal, piantal!

E é tao solene essa verdade poética, que chega a rasgar o véu de minha própria lucidez. Percebo o quanto sou luxuriosa — rasgar o véu da lucidez. Não é isso que fazem os loucos? Quando, em que momentos? Quantas vezes podemos viver um "estado de insanidade temporária? Essa moderna definição de paixão?" E rio com tudo isso, ao perceber entre um acorde e outro a loucura onde vivemos todos que nos dizemos sãos, cordatos, lógicos, obedientes, fiéis e donos de nós mesmos.

E nesse instante percebo que meu coração se amansa e ajeita seu ritmo de ser, naturalmente, já que a pressão dos “donos” de todo e qualquer pedaço se desmancha e derrete vilmente, diante do colosso que só eu posso experimentar nessa estrada.

E de repente, um carro em alta velocidade perde o rumo e rola diante de mim como num filme de ficção. Desgovernado por completo, rola fora da estrada e eu apenas o contemplo na mansidão que me envolve, e nem ouso pensar: que louco é esse? Afinal, a canção fala da loucura mansa e real, o resto não sei e, talvez por isso, não permito nem que invada minha jornada. Bendita a paz que me envolve, tão intensa que não permitiu que o carro se chocasse ao meu interrompendo meu momento de leveza: dessa vez, sustentável. E pode até ser que seja nesse momento que damos graças à vida, de verdade!

Faz tempo que venho percebendo os sinais da morte por perto. Quando foi diferente? Os sinais estão todos por aí, percebê-los é que se torna distinto. Se não há tempo pra apreciar, do bolero ao tango, do vinho ao chá de jasmin, ficamos como um personagem de script definido, cenário composto, falas rijas e bem sincronizadas com os títulos que se carregam na parede, nas alianças das mãos, nas grifes de roupas e modas em geral, no “status” das casas onde moramos, e como tudo o mais que nos faz confusos e sem fusos.

E eu a me deleitar como uma figura de poema de Fernando Pessoa, um louco por aí, sem estar no manicômio, percebendo a vida como uma dádiva, tão delicada e tenra, e por isso mesmo tão preciosa. Sabedora por um instante da efemeridade dessa bolha de sabão, contemplo a face revelada de amigos, com quem por momentos únicos e inefáveis pude contemplar instantes de preciosa delicadeza, trama de um bordado requintado tecido por almas que parecem saber tudo sobre tangos, madrugadas, perfumes e gosto de jasmim.

A flor da idade é essa que desabrocha a cada instante onde podemos saborear a vida e como ela passa. Os gregos, por certo, ao criar o mito das horas, sabiam desse mistério que envolve o tempo, encobre como o fog da estrada a visão do destino, os rumos traçados por uma divindade alhures, tudo isso que integra a mágica dos sentidos, o que nos faz crer que os dominamos e o delírio bom de querer perdê-los ou mesmo experimentar essa sensação diante de sentimentos fortes e avassaladores.

Coração coberto de adrenalina, dopamina ou qualquer embriaguez da lógica, bate diferente — ou melhor, não bate, se afina com o todo — e nesse estar íntimo, só cabem os amantes, os grandes amigos, os companheiros de estrada — como o tango, o fog no ar e os que nos inspiram a seguir, sem saber como, onde, nem por quê.

Quem foi mesmo que disse que é preciso dois pra dançar tango? Na madrugada, essa dança, pelo menos na imaginação — o baile mais requintado que ousei viver — há muito mais que dois, aliás, número e figuração não integram esse momento. E é isso — esse estar entre, esse quase que! E eu posso descobrir que meu coração não é feito de vidro pintado. E por cause...


Imagens: Car Driving at Night, Walter Hodges; Tango Dancers, Carlos Goldin; Woman in Goggles Enjoying Sunshine, Tim Pannell

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3 comentários:

Debora Bottcher disse...

Sandra, que delícia de texto... Como também adoro tango, fui embalada pelas suas palavras, pelas imagens, pela leveza total da narrativa. Uma viagem deliciosa... :)
Beijo enorme.

Anônimo disse...

Sandra, que maravilha de texto.
Obrigada pelo presente.
Beijos, Haydee

}Simone disse...

Sandra,
Uma delícia abrir minha cx e ler essa crônica. Sabe, saí da cadeira para dançar.Na realidade gostaria de estar compartilhando esse momento contigo.
Bjs.