sexta-feira, 14 de novembro de 2008

OFÍCIO >> Leonardo Marona


Para falar a verdade, há qualquer coisa de fútil em somar palavras. O tipo inquieto, os olhos preguiçosos, e de nenhuma ocupação, alheio, pouca técnica e muito sentimento, intensidade, não podia ver uma chuva e achava que era comunhão com deus. Mas, bêbado, não havia deus. Era a própria afirmação da consciência do Senhor. Acima de tudo sentia-se amaldiçoado, um pouco como que se arrastando por uma trilha desastrosa. Perseguir o desastre, aí estava a grandeza. E, no caminho, descrever a paisagem. Os corpos caindo em torno, as cabeças soltas ainda gritando, os campos azuis, as paredes submersas, os cata-ventos em chamas e as harpas vermelhas. Daí o começo da morte, quando o corpo, mais complexo, não dava conta, e a vida tornava-se algo secreto. Doía o cenho manter os olhos injetados. A desculpa para o precipício era falta de força moral, talvez a perda da mãe muito cedo, o que atraía almas caridosas, logo massacradas por sua ferocidade juvenil. Pois que o corpo era continuação do raio, o sumo do prazer que deveria circular pela carne presente, constantemente em cada atitude o baque, o trocar o cerne, o ser antena parabólica, o ser deus e diabo, acender as velas e cuspir no chão. Perder a dicotomia: seu único pavor. E toda essa idéia patética consumia-lhe as veias. Não sabia ele que para ser o que teria sido era preciso receber os tomates, justificar a existência do homem através de demonstrações ridículas de toda espécie, ser o bêbado que se estapeia ou o palhaço que se molha, acima de tudo um microscópico ser, urgido na linha do tempo sem sentido, o ajudante de pedreiro quando as pedras são de Sísifo, o santo decaído porque não pode negar o pecado, o que se entranha sem fazer alarde e grita quando se apavora. Mas, para falar a verdade, há qualquer coisa de fútil em somar palavras.


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3 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Leonardo, interessantíssimo o personagem criado e a própria dicotomia citada por você em cada frase. Adorei as frases coincidentes no início e no fim, sem contar a verdade contida nelas. Parabéns!

Ana disse...

Há mesmo.
Mas há algo de fútil em tudo na vida.
Nào?
Ana

leonardo marona disse...

exatamente, ana, e acho que, por inversão, issó é o mais bonito na vida, essa absoluta dificuldade em aproximar abstrações em palavras, a futilidade vem justamente do que há de incrivelmente ridículo e soberano em nós, que nos faz escolher o que no fundo já nos foi imposto e, mesmo sabendo que é impossível alcançar o cerne, neutralizar a queda imaginando asas.