sábado, 15 de novembro de 2008

A CHEGADA DA NOVA MULHER [Maria Rita Lemos]


Fui ao Rio de Janeiro, dia 25/10, para participar do lançamento do livro genealógico que conta toda a história de minha família paterna, desde a migração do Porto, em Portugal, até os dias atuais. Antológica e interessante, a obra foi "garimpada" e escrita pela amiga e genealogista Regina Cascão, uma criatura doce e genial que por duas vezes teve membros da família que se cruzaram com o nosso "galinheiro", como carinhosamente apelidamos nossas origens.

Na carinhosa recepção que nos foi preparada, cheia de (re) encontros e abraços, o assunto de nossas antepassadas fêmeas surgiu, e então comentamos o quanto nossas vidas mudaram, enquanto mulheres que somos. Aliás, nossas avós e bisavós jamais poderiam sequer sonhar com o que podemos fazer e viver nos dias atuais, embora ainda reste muito caminho a percorrer.

Ninguém pode contestar que, embora a mulher tenha sido colocada por muitos séculos em plano secundário em sua relação com o homem, de fato ela sempre caminhou a seu lado. Durante quase toda a história da humanidade, ela foi preparada para o cuidado do lar e as prendas domésticas, não ultrapassando os limites das paredes de sua casa. Nossas ancestrais nem sonhavam em realizar algo que não tivesse a ver com o cuidado dos filhos e do serviço da casa, além das chamadas "prendas" domésticas. Por mais de quatrocentos anos, elas viveram dentro de uma sociedade hermética, totalmente patriarcal. Até a República, passando pelo Brasil colonial e imperial, o sexo feminino era considerado e tratado como um ser humano de menor importância, comparado às crianças e até mesmo aos animais e demais pertences da casa, todos eles propriedade exclusiva do dono, seu pai ou marido.

Ironizando ainda mais sua posição subalterna, e certamente para colorir um pouco tanta indiferença disfarçada, o "bondoso" macho brasileiro criou a expressão "rainha do lar", talvez tentando, ainda que inconscientemente, compensar suas mulheres, irmãs, mães e filhas por estarem sempre ausentes das grandes decisões que envolviam a política e a história brasileira. Mulheres estas que, tão inteligentes e com tanto potencial como as de hoje, muitas vezes não tinham o direito de opinar, e, se o fizessem, na quase totalidade das vezes eram ignoradas. Tinham apenas que obedecer, sempre, ainda que não concordassem, voltando-se para os trabalhos do lar e das crianças. Essas mulheres que foram nossas antepassadas e fazem parte de nossa vida, ainda que em outra dimensão, nem sequer sonhavam em ir sozinhas a uma sessão de cinema, muito menos em viajar ou a visitar alguém. Tudo isso só podia ser feito, pelas "donzelas de família", acompanhadas por familiares próximos.


Foi só em meados do século vinte que conquistamos o direito de votar, e ainda demorou muito entre a liberação eleitoral e o fim da castração sexual. Embora a palavra pareça pesada, insisto nela: castração, sim, porque a sexualidade feminina foi por muito tempo determinada pelos homens que eram seus "donos e senhores"... vejamos, então: se donzela e virgem, ela assim deveria permanecer, até o casamento. Casando-se, tinham que entregar-se única e exclusivamente aos seus maridos, ainda que não sentissem prazer algum, e nem pensavam em reivindicar esse direito ou dialogar sobre isso. Se ficassem viúvas ou fossem abandonadas, novos homens apareciam, requisitando seus favores, afinal, como se pensava, elas não poderiam simplesmente optar pela abstinência sexual, depois de tanto tempo de dominação...

Chegou, finalmente, o final do século dezenove e o século vinte começou. Depois de vinte séculos, algumas mulheres foram à luta, tentando mudar essa situação, buscando, senão uma igualdade, um reconhecimento maior por parte do mundo masculino. Foram as primeiras feministas, que, talvez, tenham exagerado em suas manifestações, como o extremismo acontece em todas as "viradas" que marcaram a história. É normal, em qualquer mudança, que radicalismos e exageros ocorram, até que se restabeleça o equilíbrio. Foi assim com o fim do império e o começo da república, foi assim com os movimentos abolicionistas. Foi assim, também, com os primeiros movimentos feministas. Estamos, nesse início no século vinte e um, diante de uma nova e bela mulher, que, segundo as pesquisas, já é maioria nas universidades brasileiras. Já nos é possível, enquanto mulheres, participar ativamente de todas as nuances e movimentos sociais, conquistando aos poucos o direito de tomar decisões em todas as esferas políticas, no campo das letras, do esporte, da arte e da vida em geral. Já podemos, até, roubar um beijo ou algo mais, de quem nos atrai, sem termos que ser necessariamente mulheres “da vida”!

O efeito colateral, pois toda mudança também carrega isso, é a perplexidade masculina diante de suas novas esposas, filhas, mães, sogras, etc... Nossos homens estão meio perdidos, não sabem ainda muito bem como se relacionar diante dessas mulheres que eles (felizmente!) tanto amam, apesar de todas as mudanças. Acostumados que estavam a ditar as normas, estar à frente de todas as decisões, de repente eles se vêm diante de mulheres dinâmicas, que tomam suas próprias decisões, caminham com as próprias pernas, são independentes e liberais. A própria evolução das relações, no entanto, está se encarregando de colocar as coisas no lugar. Percebo, com alegria, que minha neta às vezes toma decisões no relacionamento com seu namorado, e às vezes ele é quem toma, e fica tudo bem. Tenho certeza de que as coisas vão tomar seus lugares, e que a mulher não regredirá jamais: o homem, sim, se adequará à nova fêmea. As Marias continuarão tão ou mais sensíveis do que eram, sem precisar desmaiar para despertar amores masculinos, e os Joões já poderão chorar, quando sentirem vontade, sem ninguém desprezá-los por isso.

Que seja benvinda a nova mulher, expressa já em mim e aperfeiçoada em minha companheira, minhas filhas e neta, e seus homens maravilhosos, que é também o meu filho, são meus genros e meus netos, os que já vieram e os que virão. Amém!

Imagens: Three Generation, Condé Nast Archive; Three Generations Of Women, Eric Audras; Generations of Women at the Beach, Jack Hollinsworth

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2 comentários:

Debora Bottcher disse...

Que beleza de texto, Maria Rita! Uma homenagem a nós, Mulheres, por nossas lutas, desafios, esperanças, e até as derrotas - porque, sim, todo dia as enfrentamos, não?
Beijo enorme...

Marisa Nascimento disse...

Maria Rita, que sejam todos muito bem-vindos, mulheres e homens, nesta nova geração, com sofrimentos sim, porque não estamos livres deles, mas que não sejam estes sofrimentos frutos do preconceito e discriminação distribuídos pelo tempo e espaço. Ótimo texto!