segunda-feira, 17 de novembro de 2008

DESORDEM HUMANA >> Albir José Inácio da Silva

- Pega aí, moça, que essa batalha é muito ruim – disse, depois que mais uma pessoa o ignorou, empurrou sua mão ou se esquivou do folheto. – Se alguém soubesse como isto é ruim de fazer...- seguiu ele resmungando. Tornou a estender a mão e a recolhê-la, ante o olhar furioso da senhora de quem cortou o caminho. Afastou-se quando ela começou a falar: - Já não bastavam os camelôs e mendigos de todas as idades que infestam as calçadas, agora não se pode mais andar no Rio de Janeiro sem “tropeçar”nestes entregadores de papel.

Acho que a senhora usou com precisão a palavra tropeçar. A gente tropeça naquilo que não vê. Do que vê a gente desvia, empurra, chuta, mas não tropeça. Ali não estão pessoas, estão incômodos. Incômodos que não têm rosto, não têm fome, não têm filhos esperando em casa. Não são humanos, são invisíveis, são desordem urbana.

Desordem urbana é uma expressão que temos ouvido muito ultimamente, principalmente por conta das eleições municipais. Choque de ordem foi a principal promessa dos candidatos. E todos concordamos com a necessidade de ordem e racionalidade nesta cidade. Principalmente quando a desordem é causada pela incompetência administrativa, pelo desinteresse político, pela corrupção e pelas vantagens indevidas. Os jornais e a televisão têm mostrado imagens de policiais fardados comprando ou “ganhando” CD’s de pornografia pirata. Flanelinhas acharcam livremente os motoristas nesta cidade sem que se consiga um único policial nas proximidades para pedir socorro. Verdade que no final do dia estes aparecem cochichando com aqueles, provavelmente pedindo-lhes afetuosamente que não repitam isso no dia seguinte. Ainda dizem que a polícia do Rio é violenta!

Mas deixemos de lamúrias e retornemos àquele jovem lá do começo. Comigo a abordagem foi além do papelzinho. Como eu trazia na mão uma garrafa de água, ele me pediu um gole. Disse-lhe que a garrafa já estava quase vazia, mas que poderíamos comprar outra ali naquele bar. Chegamos ao balcão e seus olhos percorreram ávidos tudo que havia para comer. Não acredito em esmolas, acredito em políticas sociais custeadas pelos impostos dos cidadãos e geridas pelo poder público. Como canta Gonzaguinha, a esmola “... ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”. Mas ele não me pediu nada e eu não pude ignorar seu olhar. Sorriu quando perguntei se estava com fome. Tomou café com leite, comeu duas coxinhas e um pedaço de bolo. Comentei que teria sido melhor se ele tivesse almoçado, mas ele replicou que assim estava bom porque estava com muita pressa. Tinha de terminar os folhetos, receber pelo trabalho, viajar por duas horas e levar para casa pelo menos leite, feijão, farinha e o que mais o dinheiro desse. Falou isso sem amargura, com um meio sorriso de quem quer amenizar palavras que sabe fortes. Disse que esperava que Deus me abençoasse muito, porque não tinha comido nada até aquela hora.

Por mero acaso ele deixou de ser apenas um incômodo para mim. Tive de enxergá-lo, de ver seu rosto, de reconhecê-lo pessoa.

E ele não me pareceu nada com desordem urbana.

Que a desordem urbana, que esconde interesses escusos e criminosos, que embrutece o cidadão descrente da solidariedade e da justiça, não nos impeça de ver a pessoa. Não nos impeça de reconhecer a dignidade daqueles que são dignos mesmo sem os direitos da cidadania.

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5 comentários:

cArLa disse...

Gostei muito. O caos e a desordem urbana, vêm, principalmente, da nossa cegueira voluntária e seletiva.

Hebe disse...

A desordem é, em nome de uns acumularem sempre mais, não ter "espaço" pras pessoas e elas terem que se submeter a tantos trabalhos que lhes dão tão pouca condição de vida digna. Continuemos tentando não embrutecer, cuidando de ver a pessoa, crendo e fazendo solidariedade e justiça e reconhecendo a dignidade.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Albir, eu não acredito nem em esmolas nem em políticas públicas: acredito no encontro entre pessoas, seja por meio de uma esmola seja por meio de políticas públicas. Sua crônica me fez ter clareza dessa minha crença. Grato,

Marisa Nascimento disse...

Albir, obrigada por, em meio a tanta desordem, mais uma vez, por meio da sua escrita sensível, trazer esse grito de uma parcela dos excluídos. Isso mexeu muito comigo...

Debora Bottcher disse...

Ah! Albir... Que chacoalhão na sociedade é esse texto... Muito sensível e profundo. Mexeu comigo também: é uma reflexão que a gente não quer fazer, mas quando se depara com ela, toma um enorme susto, uma pancada na consciência, um tapa na cegueira cotidiana... Triste... Beijo pra vc.