quarta-feira, 5 de novembro de 2008

HOJE NÃO TÔ PRA PROSA >> Carla Dias >>



Tô bêbada de sonho

Embevecida por milagres

Eu corro em círculos

Pulo degraus

Meus afetos já não cabem

Na voz comprometida pelo zelo

E o estômago embrulhado

De ansiedade

O tempo sentado à minha porta

Papeando com a saudade

Varais seguram camisas

Pelas mãos

Anéis-pregadores verdes

E eles dançam tão a sós

O vento sopra a cara da tarde

Perfumes brotam do abraço

Cultivado em delírios

Abraço que se dá sem tocar o outro

E eu bêbada de sonho

Pés mergulhados nessa jornada

Voz embargada num canto mudo

E eu me mudo de universo

Só pra brincar de vida diferente

Carrego no olhar as paisagens

Eternas

Enternecedoras

Vibrantes

Paisagem da janela da canção

E também girassóis

Nos cabelos

Se me olham de fora

Acabam enxergando essa doida-varrida

Na qual me transformo

Pra refrescar a memória

É bom lembrar que podemos

Ser tantos

Dependurar-nos em arco-íris

Pra colher cores

Pra pincelar a realidade

Hoje não tô pra prosa

A cara enfiada na poesia


Imagem: Jander Minesso





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8 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

E eu que pensei que não gostava de surpresas... :) Gostei do seu não estar pra prosa: cara enfiada na poesia.

Carla Dias disse...

Eduardo... Que bom que pra você foi uma surpresa boa. Não sei... Comecei a escrever uma crônica, algo tão real. E me deu vontade de dar a mão à poesia. Dei.

marcela disse...

oi carla! que pincelada boa na realidade ,só pra brincar de vida diferente .lindo!!

C Letti disse...

Eu ia deixar um recado e quando abri esta janelinha, Edú já havia escrito o que eu tinha pensado...

Sinal de que, contrariando a regra geral, quando você não está para prosa, a gente é que sai lucrando. Eu sempre vejo muita poesia na sua prosa, mas quando você está só para poesia, minha amiga, sai de baixo!!
beijo grande!

Marisa Nascimento disse...

Vixe, Carla! Já falaram tudo! Na verdade quando você não tá pra prosa, tá pra poesia, quando não tá pra poesia, tá pra conto, quando não tá pra conto, tá pro silêncio. E quando tá pro silêncio, só os deuses devem saber o tanto de história que deve existir guardada pronta para se interpretar. :)

Carla Dias disse...

Marcela: certas brincadeiras nos agarram pelas mãos e nos arrastam, não?

Claudia: tenho grande afeto pela poesia, por isso fico feliz quando dizem que a encontram na minha prosa. Não sou boa de prosa, mas se posso juntá-la à poesia, bom, escrever se torna uma jornada de descobertas e sensações.

Marisa: Havia dias em que minha avó dizia “sai pra lá que hoje não tô pra prosa”. E eu me lembro de observá-la detidamente nesses dias. Havia tanto de bonito naquela braveza, porque na verdade, a impressão que eu tinha era que ao dizer isso, minha avó queria apenas um tempo para ficar consigo mesma; para descansar a alma da função de mulher esposa, mãe e avó, e ser apenas a pessoa a contemplar a vida.

Acho que foi isso: parei para contemplar.

albir disse...

Carla,
contemple.
Pare de contemplar, escreva.
Pare de escrever, contemple.
Contemple a escrita.
Escreva a contemplação.
Escreva...

Carla Dias disse...

Albir...
Contemplarei... Escreverei...
Na verdade, é só que sei fazer da vida!
Obrigada pela visita : )