quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Raros e normais >> Ana Coutinho

Recebi esses dias um e-mail, desses com uma pergunta de lógica. Tinha uma seqüência numérica e você teria que descobrir o 6º número. Eu tentei um pouco, não consegui. Logo, outros destinatários começaram a escrever dizendo o tempo que tinham levado para matar a charada: 2 minutos, 3 segundos, meio minuto, e o remetente que confessou ter levado 3 minutos, logo recebeu críticas: “Tá fraco hein? Precisou de todo esse tempo?” – dizia um dos gênios. “Nossa, que devagar, eu não levei mais de 5 segundos”, bradava outro.

Eu, assistindo àquilo tudo, voltei para os números. Li, reli, fiz contas, simulei algumas possibilidades e nada. Oito minutos. Levantei, tomei um café, voltei e peguei firme nesses números malditos, até sentir que saía fumaça da minha cabeça... A manhã havia passado e eu me sentia a maior anta entre todos. Comecei a me perguntar como foi mesmo que eu consegui entrar nessa empresa. Como fiz faculdade e sou até pós-graduada, imagine, uma tosca como eu, pós-graduada! Se o Jornal Nacional me descobre, pronto, vou sair na Globo provando como a educação no Brasil é ruim. Pessoas limítrofes com diplomas pomposos, é o fim!

Lembrei, imediatamente, de Fernando Pessoa: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada.Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil”.

Faz tantos anos que esse gênio escreveu isso que me atordoa como é atual. Faça um teste: Diga aí, numa roda de amigos que vai chegar uma conhecida sua que é uma grossa, que humilha os outros e maltrata a todos. Os seus amigos, todos dirão: “Ah, comigo não, comigo nem vem que não tem, eu grito mais alto, eu não aceito esse descaramento, eu – o rei – irei rebater a sua amiga, que eu não levo desaforo pra casa, não..”. Ninguém, em nenhum bar, assumirá o seu receio. Ninguém dirá humilde: “Ai que chato, detesto essas situações, vou indo...”. Não. São todos reis e fortes. Se a mal-educada de fato vier, no entanto, muitos se calarão diante de suas grosserias. Tímidos, humilhados e amendrontados diante de gritos alheios, irão fingir que não ouviram ou que não entenderam a piada grosseira. Porque, ate onde eu sei, não somos todos os reis da floresta. Somos?

Meu QI deve ser o padrão, mas todo mundo que fez o teste diz que o seu é, no mínimo, um pouco acima. Eu não sei cozinhar, tenho dificuldades ridículas como trocar uma cena do DVD que está passando, assisto novela e, vez ou outra, compro a Istoé Gente inclusive. Também assisto o TV Fama um dia ou outro, é raro, é verdade, mas eu assisto a Íris Stefanelli (isso, ela mesma) na Rede TV! Mas todo mundo que conversa comigo, jura que só sabe as fofocas de ouvir falar – onde é que eu não sei. Ninguém se confessa humilhado ou sem-graça com uma brincadeira de mau gosto. Eu devo ser mesmo muito tola, porque até choro quando gritam comigo, mas não grito de volta. Também me calo, se no trânsito me fecham ou se um motoqueiro me xinga, não porque eu não tenha visto ou ouvido, mas porque tenho medo – sim, medo – de apanhar, de morrer no trânsito ou qualquer coisa assim. Não sou valentona. Não sou fodona. Sou uma fraca em meio aos fortes, sinto-me uma gazela sem-jeito em meio aos leões.

Mas sou uma gazela que paga as próprias contas, não jogo nenhum papelzinho de bala no chão, seguro o elevador para os outros, trato igualmente bem os meus conhecidos, sejam eles porteiros do meu prédio ou presidente da empresa na qual trabalho. Sou uma pessoa honesta, procuro ser justa e leal a cada minuto e, embora meu QI não seja lá essas coisas, embora eu titubeie quando me perguntam a capital da Rússia, talvez tenha algum valor por ser uma humana normal, cheia de vergonhas e orgulhos. Ainda que eu seja a única nesse mundo de reis, doutores e gênios. E eu ainda não descobri o 6º número.

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5 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ana, o que há de mais perfeito na sua crônica é a omissão de seu grande talento para a escrita: mesma omissão que há no poema do Pessoa. Você fez, do verso de Pessoa, uma crônica. E eu, que amo Pessoa, amei a crônica. :)

Marisa Nascimento disse...

Ana, eu, humildemente, acho que você tem que parar com essas coisas de ficar procurando o sexto número. Deixa disso! Larga o sexto número que é coisa para os comuns que não podem perder tempo e vai escrevendo mais maravilhas pra gente. Isso sim é para poucos :)

Debora Bottcher disse...

Ana, querida,
Vc tem companhia, não se preocupe. Eu recebi também uma coisa dessas, acho que era pra achar um 'C' e nem lembro se achei, sabe? :))) Bobagem, isso não mede quem somos de fato.
E eu sou como vc: Digo 'Que chato' se me dizem que uma pessoa grosseira vai chegar, e também tenho horror às agressões no trânsito. Acho mesmo é que nós é que somos muito, exageradamente normais... :)
Beijo e saudade.

Anônimo disse...

Senti emoção passando da tela do meu note,essa capacidade não tem nota,preço.....

Juliêta Barbosa disse...

Ana,
Genialidade é para poucos! E ela se traduz através da sensibilidade de se perceber normal. A sua pós-graduação na vida, já a habilita para o mundo das pessoas "Normais" que fazem toda a diferença. Parabéns!