sábado, 1 de novembro de 2008

DE ATRASOS E ABANDONOS [Debora Bottcher]



A falta de pontualidade é um pecado sem testemunha - já que o atrasado nunca está presente. Ela esperava por ele há mais de um quarto de hora. Sua impaciência gritava em silêncio e ela ouvia os sons irritados do seu interior questionando porque ainda permanecia ali, feito árvore isolada à beira da estrada.

A vida ao redor não fazia sentido. O vai/vem/entra/sai das pessoas a afligia mais: ela buscava em cada rosto que transpassava a porta do pequeno Café, em cada face através dos vidros cinzentos, o sorriso amarelo daquele que não se afinava a horários. Todas as vezes ele chegava pálido, ofegante, rápido. Era impossível entender.

A mente dela concebia uma única explicação: alguém o abandonara na infância. Não era comum que um homem não conseguisse atrelar à sua vida o compasso das horas. Algo grave devia ter acontecido afetando seu subconsciente de maneira que ele tivesse resolvido nunca mais estar nos lugares no tempo exato a dar chances de ser esquecido. Melhor deixar alguém à sua espera do que esperar por alguém que talvez não chegasse...

Isso a incomodava profundamente. Nos últimos dois anos, desde que se apaixonara, vivia andando em círculos ao redor dessa criança que se vestia com a altivez dos que tudo sabem. Dono da verdade, ele proclamava suas crenças derrubando qualquer teoria contrária à idéia que apresentava. Bem complexo...

Era uma relação fadada ao fracasso, ela sabia. Contudo, não conseguia deixá-lo. Era como se precisasse protegê-lo, abrigá-lo, dar-lhe sempre uma nova chance - de novo, outra vez, novamente...

Aquele homem tinha nos olhos uma expressão que ela ainda não decifrara. Eram sombras de dores e mágoas que não conseguia captar: ele parecia a própria encarnação da alegria de modo que não era cabível aquela contradição.

Falava pouco de si. Ela o “conhecera” através do amigo de um amigo de quem ele era amigo. Só isso, por si, já revelava a complicação. Mais tarde ela veio descobrir que ele não tinha amigos: era tudo uma fachada. Ele criara um mundo à parte onde vivia literalmente sozinho.

Foi quando se deparou com essa realidade que ela começou a questionar a que viera na vida dele. Que importância lhe era delegada, qual era o seu lugar e porque ele a mantinha? - de certa forma.

E lá se iam dois longos anos em que isso se perdia entre encontros e desencontros, angústias, madrugadas insones, dias tentando localizá-lo, trinta e dois recados na secretária eletrônica. Tudo para, quando já sentia-se exausta e terrivelmente desesperada, vê-lo à soleira da porta, abatido, barba por fazer, olheiras, explicando entre tímido e brincalhão que viajara às pressas, negócios do outro lado do mundo, celular sem alcance... Uma ilha, ela imaginava. Qualquer lugar entre o deserto do Saara e o oceano Pacífico.

Nessas ocasiões - constantes -, permanecia imóvel por um longo tempo - que na verdade era breve -, e depois lhe segurava o rosto entre as mãos beijando-o mansamente, como se faz para acalentar um garoto travesso, assustado, que quebrou a vidraça.

Já disse alguém que o amor tem razões que a própria razão desconhece e era nisso que pensava enquanto constatava que ele não viria. Onde estaria? Esquecera-se dela...

Foi então que um rapaz gentil, de olhos brilhantes e cabelos desalinhados, aproximou-se de sua mesa olhando-a, que sorriu constrangida. Apressou-se em pegar suas coisas imaginando-o desejoso de sentar-se, convicto de que ela já havia ocupado o lugar por tempo demais inutilmente.

Percebeu o estranho tocando levemente seu braço, dizendo coisas que ela não assimilou imediatamente, dada a confusão que tomou conta do momento. Mas no segundo seguinte devolvia seus pertences à cadeira ao lado e voltava a sentar-se, muito descontraída, quase rindo de alguma brincadeira jovial na voz calma e tranqüila que se dirigia a ela. Logo depois tomavam café beliscando qualquer coisa doce que se oferecia à frente deles, conversando como alegres velhos conhecidos que se reencontram numa tarde fria, casualmente no meio de um shopping lotado.

Ela esqueceu de tudo o mais. E foi sem surpresa que sentiu-se tão confortável que finalmente compreendeu todos os atrasos e abandonos a que fora submetida...


Imagens: Tempo, Flavia e Helena; Head View a Model, John Rawlings; Young Couple Drinking Hot Chocolate, Tim Pannell

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8 comentários:

Ana disse...

Ai Dé, que saudades de ler você...
Ainda mais com essa doçura com a qual você finalizou essa crônica.
Adorei!
beijos querida!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Salve, salve! Coisa boa esse reencontro com suas palavras. Não se atrase mais tanto da próxima vez. :)

Marisa Nascimento disse...

Oi, Debora! Que bom te ler aqui novamente! Seu jeito sensível de escrever é sempre um convite pontual de encontro comigo mesma. :) Beijo grande!

Debora Bottcher disse...

Queridos Ana, Eduardo, Marisa... O carinho de vcs me incentiva a escrever - coisa que faço cada vez menos... Agradeço a deferência. :)
Beijo nos três.

Anônimo disse...

Puxa, Débora, estou fascinada! Acho que poucas vezes li matérias suas... muito lindo, sensível, palavras bem escolhidas, a gente parece estar dançando entre as frases... amei! Parabéns, e, por favor, prossiga escrevendo! Se é importante para você, é muito mais para nós... beijos, meu melhor.
Maria Rita

Carla Dias disse...

Débora... Às vezes, permanecemos onde nem sabemos ao certo se desejamos estar. Coisas da vida... De quem arrisca e, sem querer, se atrapalha um pouco durante a jornada; gasta mais tempo que necessário para reencontrar o rumo. Pessoas, não? Gente... Humanos...

Anônimo disse...

Uma história de desencontro
com palavras tão bem encontradas.
Reverencio a sua criatividade.

Anônimo disse...

Uma história de desencontro
com palavras tão bem encontradas.
Reverencio a sua criatividade.

Edson Lamim