quarta-feira, 12 de novembro de 2008

MARGENS >> Carla Dias >>


As margens me interessam...

Margem do caderno, aquele risco, por vezes colorido, a separar a palavra escrita do vazio necessário. Naquele lugarzinho que me aperreava observar, desenhei muitas margaridinhas. Na minha cabeça de menina convivendo com cadernos, um talo tinha a ‘altura’ da página, e nele se dependuravam as florezinhas em cores que, nem sabia, não cabiam em pétalas.

As margaridinhas com pétalas marrons me enchiam os olhos. Elas que dividiam o mesmo talo, como hoje muitas pessoas dividem seus apartamentos.

A margem da represa que banhou minha infância... Lembro-me da pele amorenada pelo sol que hoje, adulta, tenho de evitar a todo custo. Ao invés de andar pela margem arrastando os dedos do pé na água geladinha; equilibrando-me nas pernas grossas de criança criada a arroz, feijão, chuchu e polenta; imaginando como seria viver debaixo da água escura, como seriam seus habitantes, aqueles que adulavam os peixes; ao invés disso, hoje me limito a represar o suspense, a facilidade em conceber fantasia.

O meu hoje são margens cercadas por muros gigantescos e transparentes. Apesar de poder observá-las, não há como desenhar nas suas faces as margaridinhas marrons, nem mesmo como tocá-las com os pés.

Por isso observo as margens, sei delas tanto que poderia escrever um livro somente sobre o que nelas se perdem; por que nelas me perco. Viver de margens não é ficar em cima do muro. Tornar-se especialista em margens não é viver de teorias.

Viver das margens pede por uma coragem descarada. Como a coragem de conhecer a profundidade que ela protege. É isso... As margens são protetoras férreas das essências. Você pode conhecer a essência e viver à margem dela, sinalizando o caminho a outros, os que, sozinhos, passariam reto por ela e perderiam a delícia de saber sobre o início do que buscam.

Margens são inícios... Sem inícios chegamos a lugar nenhum.



“Espaço livre de tempo ou de lugar”, parece marcador do livro da vida. Soubesse como pular esse muro particular, eu me banharia nas margens da consciência, da tolerância, da dignidade, da euforia.

Apaixono-me fácil pela margem do ser de alguém. Aprecio quem se é à margem dos que lutam para não demonstrar, como fosse hall de entrada para a intimidade. Somos margens vazias, até sermos seduzidos pela vida e nos atrevermos a caminhar no próprio dentro, voltando às margens para de lá observar as descobertas. Abraçar horizonte com o olhar.

Sou das margens, e com esse quê de pescadora de nonsense. Entende? Nem precisa, contanto que me permita ficar por perto, à margem de quem é.



Estou aqui se precisarem de margaridinhas com pétalas marrons, dedos dançando nas águas da represa; confinada ao lado de cá de muitas margens, mas grata por serem os muros transparentes. Porque, de certa forma, também eles são margens e, vazias, atiçam minha vontade de completá-las ao gosto da minha imaginação.


www.carladias.com


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4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Que lindo, Carla: desenho, foto, palavras!

Marisa Nascimento disse...

Fantástico, Carla!! Nunca vi alguém achar utilidade para a margem dos cadernos! Amei! Adoraria ter corrigido alguma redação cheia de flores...E que delícia essa outra leitura para a margem do ser! :)

Adriana (Drika) disse...

Me deliciei com as lembranças... muito boa esta relação com as margens invisiveis,porém, reais, com as quais nos deparamos.. a foto, então...ai, ai... parabéns pelas palavras capazes de reportar-nos... a nós mesmos. bjs

Ana disse...

Ai, eu tambem desenhava nas margens do meu caderno, como você... Mas, nas minhas lembranças, eu desenhava baloezinhos, tipo bexigas mesmo. De qualquer forma, o melhor, foi ter tornado as margens um lugar tào poetico assim. E você fez isso lindamente!
Adorei!
beijos!