domingo, 30 de novembro de 2008

CARTA ANÔNIMA >> Eduardo Loureiro Jr.

No gramado aqui perto de casa, vi uma bola de papel amassada: ponto branco sobre a página verde. Sem saber bem qual o motivo de minha atitude, fui até a bola, tomei-a em minhas mãos e desamassei o papel. Era uma carta. O destinatário não estava explícito. E a carta não estava assinada. Reproduzo aqui, caso algum leitor saiba de que se trata e possa me dizer.

Klondike Kid / Flickr.com

Querido,

Sei que você quer entender, então resolvi deixar por escrito.

Sabe quando você acorda, depois do sono depois do almoço, com vontade de comer alguma coisa doce? Antes mesmo que você acorde completamente, eu me aproximo e lhe ofereço um doce diferente de qualquer doce que você já tenha provado. Talvez lhe pareça estranho, pois não tem o gosto nem a cor do chocolate, talvez nem lhe pareça bom. Você pode mesmo pensar que preferiria ter comido o chocolate, você pode até comer o chocolate, mas antes mesmo de você acordar com vontade de doce, o doce que lhe trago já está esperando por você, e um dia você vai preferir esse doce a tudo o mais. Um dia, você verá que o doce de que você gosta atualmente é um resto de açúcar num copo plástico, deixado na cama por preguiça de se levantar e levá-lo até a cozinha para, horas depois, acordar e descobrir que ele está sujando o lençol. E, ao seu toque, as formigas se assustam e se espalham, mesmo que baste um pequeno movimento de mão para que você recolha quase todas as formigas com o próprio copo e corra para afogá-las na pia do banheiro.

É como brincar de esconde-esconde com alguém que está a dois mil quilômetros de distância e com quem você não fala há alguns dias. Vocês estão juntos, ligados, conversando, brincando; quando você pensa, você vive. É como descobrir que ainda tem saudades de quem já foi há muito tempo, de quem em você não deveria restar nada senão um nome e uma lembrança amena nas datas especiais. Mas você não esqueceu, e ouve a canção que diz que ainda não esqueceu.

É tanta coisa para você sentir que você já se sente fazendo, e pensa que não dará tempo de fazer tudo, e decide que algo tem que ser deixado de fora, e você coloca um aviso "hoje não", porque quer dar uma satisfação às pessoas. Quando acorda , você descobre que só tem uma coisa a fazer, que só está ligado a um único compromisso: não é o doce, embora nada lhe impeça de comê-lo; não é a distância, pois vocês já estão próximos; não é o esquecimento, porque você continuará a lembrar. A única coisa a fazer é dizer "hoje sim", abrir uma pequena brecha na porta do caminho e deixar a luz entrar; a princípio, tímida. Timidez não da luz, mas da abertura à luz. E por essa fresta na porta, por essa réstia de luz, todos saberão que você acordou. E o que vem depois daí? Bem, você não precisa ter pressa em saber, porque tudo que você especula que vai acontecer, ou teme que vai acontecer, já aconteceu. Tudo está feito. Tudo perfeito. Basta você descobrir no doce branco o gosto de uma vida nova.

Amor sempre,





Partilhar

8 comentários:

albir disse...

Ainda bem que você achou,Edu.Tomara que o autor se apresente. Ou vire cronista.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Pois é, Albir... vai até que já é autor e a gente nem sabe. :)

Juliêta Barbosa disse...

“A única coisa a fazer é dizer "hoje sim", abrir uma pequena brecha na porta do caminho e deixar a luz entrar; a princípio, tímida”.
Mas, é essa timidez que impede meus passos de prosseguirem. Gosto dos dias claros e as brechas nas portas não suportam um clarão, assim, tão intenso. Na bíblia tem uma passagem que diz: seja quente ou seja frio, não seja morno que eu te vomito. O que fazer, então? O dia, a noite ou as pequenas frestas de luz? A dúvida é um recurso cruel!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Juliêta, existe o movimento: o morno estável, o morno que está esfriando e o morno que está esquentando. :) Bom contar com o seu olhar.

Anônimo disse...

Creio que se trata de uma carta de despedida... ela/ele está partindo e tenta deixar o outro na posição mais confortável possível... como fazem os que sabem amar, os que sabem partir...

Eduardo Loureiro Jr. disse...

É uma possibilidade, Anônimo. :)

Anônimo disse...

Eu não acredito que tenha "achado" esta carta, poeta.
bj
maria

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Mas que pessoinha mais desconfiada, Maria. :) Beijo,