segunda-feira, 14 de março de 2016

A GRANDILOQUÊNCIA >> André Ferrer

Para Don DeLillo (1936- ), o grande romance americano é um mito. DeLillo é um daqueles escritores que constroem verdadeiros painéis sobre a política e a sociedade do seu país. Como Philip Roth (nascido em 1933 e aposentado em 2012), John Updike (1932-2009), Saul Bellow (1915-2005) e Norman Mailer (1923-2007), DeLillo não parece ter feito outra coisa nos seus mais de 50 anos de carreira a não ser perseguir um tipo de romance capaz de dissecar e explicar a América.

Negar essa corrida do ouro, com uma pitada de humor e sarcasmo, parece fazer parte do jogo nos EUA. Toda a elite literária costuma fazer piada a respeito disso. Em público, o que move os escritores é a distração dos olhos desse ponto crucial. Agora, em seus escritórios, dada a qualidade do produto acabado, a conversa parece ser bem diferente.

O grande romance americano é um ideal mais ou menos inconfessável, mas que tem cumprido a função de ideal. Pode até ser um mito, contudo é um mito que eleva o padrão da literatura, aquece o mercado e dá ânimo aos leitores.

No Brasil, muita gente gargalharia se alguém confessasse andar no encalço do grande romance brasileiro. Em primeiro lugar, existe uma forte rejeição à narrativa por aqui.

Nos anos de 1970, a prosa poética tomou conta de corações e mentes. Nossos narradores, com a exceção de uns poucos como Carlos Heitor Cony (1926- ), Antônio Callado (1917-1997), João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), converteram-se em poetas prosadores (ou prosadores poetas). O processo de análise e síntese da nação brasileira pela narrativa foi, então, adiado. Na verdade, entre 1980 e 2000, ele até mexeu as pernas, muito de leve, alongou os braços, bocejou um pouco.

Em segundo lugar, temos vergonha (ou medo) de uma tarefa tão grandiloquente. Dissecar o Brasil seria, então, um trabalho para os brasilianistas de Yale e Columbia e não para intelectuais nativos? Por quê? Talvez porque a nossa experiência sempre tenha sido péssima em relação a projetos grandiloquentes. Não, nós não temos o equipamento ianque de manutenção de ideais. A grandiloquência cobra um preço muito alto. No mínimo, o preço de se manter no encalço de um objetivo semovente.

Nos EUA, neste caso (e em muitos outros casos), o "know-how" é imbatível.

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