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NOITE NOIR >> Zoraya Cesar

Kairós - em grego antigo: o momento oportuno, perfeito ou crucial, o acerto fugaz entre tempo e espaço que cria uma atmosfera propícia para ação.

A rua estava mal e mal iluminada por um único poste, cuja luz, baça e amarelenta, era sugada pelo beco, que mais parecia um buraco negro. Era uma noite de inverno sem lua, e o frio seco, que o vento espalhava aleatoriamente para todos os lados, gelava os ossos mais duros. Os ossos mais duros, pensou Raymond, também sentem dor.

Encostado ao poste carcomido pela ferrugem, ele acendeu um cigarro, que, por breves instantes, brilhou como um vaga-lume de vida curta. Aspirou a fumaça, aquecendo os pulmões, e soltou-a lentamente, seus pensamentos acompanhando os desenhos que se desenrolavam no ar. Tragou o cigarro mais uma vez; tragou algumas lembranças também, a garganta apertada e ardida. Ele bem queria que as memórias se esvanecessem na noite, junto com a fumaça. Ele bem queria esquecer os momentos de terror que passara há alguns anos, numa noite bastante parecida com aquela — em que foi espancado com tacos de beisebol pelos comparsas de Sore Mal e jogado da ponte, de uma altura vertiginosa, direto para a morte enregelante do rio. Mas a morte não viera: mandou em seu lugar a dor lancinante e interminável; o choque pelo frio causado pela água, que paralisou seu coração por breves, intermináveis, excruciantes momentos; e um desejo imorredouro de vingança, que os anos não arrefeceram. Ele bem queria esquecer, mas seu corpo, cheio de cicatrizes e calos ósseos tão dolorosos que ele mal dormia, não lhe permitia.

Devaneava naquele ermo. Talvez o frio e a solidão o deixassem meio nostálgico. Acreditava em destino. Pois não fora obra do destino, esse senhor arbitrário e cheio de vontades, que o fizera cair em desgraça com o pior bandido da cidade, Sore Mal? E não fora também obra do destino ter escapado com vida do atentado? No entanto, ele também acreditava que a vida se movia em ondas de oportunidades. Se você não as navegasse, elas te esmagavam. Sore Mal já fora rico e poderoso. Seu império decaíra, mas ele continuava no métier, extorquindo, ameaçando, tentando voltar a ser temível, farejando a primeira oportunidade.

Raymond espreguiçou o corpo enrijecido pela imobilidade e pelo frio. Não precisou olhar o relógio para ver as horas. Sabia que seu turno de vigia tinha terminado, sem que o alcaguete que esperava tivesse chegado. Estava cansado, no dia seguinte recomeçaria seu trabalho, resolveu ir embora; o lugar era perigoso, mesmo para alguém como ele, acostumado às sombras, aos desvios, aos desvãos da noite mais escura da cidade. Puxou vigorosamente a última tragada. A cinza, incandescida, iluminou um vulto ao longe, no fim da rua. Raymond apagou o cigarro, engoliu a fumaça e se escondeu ainda mais nas sombras.

Não podia ser! O andar ligeiramente manquitolante, aquela maneira de mexer os braços...

O que ele estava fazendo ali, àquela hora, numa rua onde não havia bares, prostíbulos, pequenos comerciantes, nada que ele pudesse achacar ou explorar?

Encontrar seu Destino, com D maiúsculo. E seu Destino estava nas mãos de Raymond. E Raymond tinha poucos segundos para decidir o que fazer. Nunca mais teria uma chance como aquela, encontrar Sore Mal desavisado, desacompanhado, no escuro, sem testemunhas. Oportunidade. Aproveite-a ou afogue-se. Raymond nunca fora assassino a sangue-frio, nunca matara pelas costas.

Sore Mal passou por ele, sem vê-lo ou pressenti-lo, e quando sentiu a faca cortando seu pescoço já era tarde demais. As últimas palavras que ouviu foram as de Raymond mandando lembranças ao Diabo.

Raymond nunca matara pelas costas, mas sempre tem uma primeira vez. Raymond nunca fora assassino a sangue-frio. Mas seu sangue estava em ebulição.

Ele guardou o distintivo, limpou a faca e foi embora. Livre. Seu corpo nunca mais doeu.


Comentários

Anônimo disse…
A vingança é um prato que se come "frio"!

Gostei dessa, sem bruxas e principalmente sem gatos, hehehe...
Ana Luzia disse…
Uau... simples assim. a riqueza de detalhes nos transporta para a cena, deu até frio no calor de 40º do Rio... viu a oportunidade, agarre-a!
Marcio disse…
Acho que foi muito fácil matar Sore Mal.
O exame cadavérico confirmou a sua identidade?
Não teria o maquiavélico Sore Mal colocado um sósia em seu lugar?
Clarisse Amador disse…
Amiga, esse foi dos contos que mais gostei! Amei a imagem que você fez da chama do cigarro com "um breve vaga lume". Amei a correspondência entre o sangue em ebulição de Raymond com o gelado de Sore Mal". Está cada dia mais afiada, minha escritora noir predileta!
Erica disse…
Adorei as fotos que você colocou pra ilustrar! Tudo a ver!... e... ainda bem que esse teve fim, porque já estava começando a pensar que teria uma segunda, terceira, quarta, quinta parte...rsrsrs
Alexandre Durão disse…
Muito bom, Zoraya. O ritmo adequado (o que não é simples, nesse tipo de texto), as imagens muito boas. Gostei.
Tenho uma sugestãozinha, tirada dos filmes, mas falamos sobre isso pessoalmente, coloquei aqui só pra não esquecer.

Beijão.

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