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O TEORIZADOR >> Carla Dias >>


Para quase tudo: teoria. Reconhecendo o valor de pensar a respeito, elaborar jornadas, vitalizar possibilidades, tornou-se teórico de primeira, daqueles de fazer inveja aos que não querem se dar ao trabalho de aperfeiçoar-se na arte.

Teorizar pede por talento com o qual poucos são abençoados. Esqueça-se dos teorizadores eventuais, que não se aprofundam no tema, têm preguiça infinita de se debruçarem sobre aquela listinha básica do pode-ser-que-sim-pode-ser-que-não e dos resultados de pesquisas.

Chegou à conclusão, após dormir quase vinte e quatro horas seguidas, depois de um turno absurdo de três dias acordado, que teoria é a coisa mais insana — e divertida — desse mundo. Pense bem... Há teoria para tudo nessa vida.

As pessoas adoram escutá-lo discursar sobre qualquer teoria, que ele domina o verbalizar probabilidades. De uma forma mais complexa do que deveria ser, ele teoriza como se, na prática, praticasse o teorizado.

Sim... É meio confuso.

Por isso, ninguém entende o que acontece com o teorizador mais eloquente do planeta.

Sim... Do planeta.

As muitas palestras, sabiamente distribuídas entre segundas, quartas e sextas, têm sido um emaranhado de teorias estranhíssimas. Ainda na segunda, especulou sobre o sentimento competente de bambear de pernas. Durante uma hora e trinta minutos, ele falou sobre o que poderia causar tal resposta física. Os escolados em rebater suas teorias ficaram calados, taquicardia cronometrando a tensão de não saberem o que dizer.

Na quarta, o homem palestrou por uma hora e quarenta e cinco minutos rimando tudo quanto era palavra. Abordou a teoria rítmica do que é dito, e seguiu por aí, rimando palavras estranhíssimas aos ouvidos de estrategistas que o acompanham desde sempre. Caraminholas foram libertadas da cachola de muitos participantes.

Já circula por aí a fofoca-notícia-teoria de que o teorizador perdeu o seu talento. Alguns acreditam que ele voltará para a sua cidade, aquele lugarzinho escondido na transversal de lugar qualquer. Lá, ele levará uma vida eremita, tamanha vergonha por ter se permitido perder talento tão caprichoso.

Na sexta, ele decidiu abalar as estruturas emocionais dos presentes. Durante quase cinco horas, dissertou sobre o desejo de sair da teoria. Sair como? Por quê? As pessoas murmuravam respostas, esgares foram desferidos. Houve quem abandonasse o recinto, enquanto fazia uso de um vocabulário esdrúxulo, exigiam seu dinheiro de volta e acusava o teorizador de ter sido infiel à arte de teorizar.

Arte mesmo, ele responderia aos avessos à sua mudança, enquanto eles fechavam suas mentes ao que o teorizador tinha a ensinar, é sair da teoria para abraçar a prática. Assumir esse compromisso pode ser aterrorizador, mas também catártico.

Até então, seus teorizadores-seguidores jamais haviam escutado sua voz sair assim, entrecortada. Nunca houve em seu tom a desordem emocional que eles presenciavam no momento. Mas ele não se fez de rogado e, pela primeira vez em sua longa carreira como representativo profissional das teorias, colocou em prática a mais intrigante delas.

Foram dias e noites teorizando a respeito, recorrendo aos livros especializados de autores consagrados, entrevistando compositores e autores, especialista nisso e naquilo. Descobriu-se, então...

Descobriu-se.

Na teoria, o teorizador era praticamente um poeta. Saiu do que poderia ser para o feito. Abraçou fatos com a delícia das descobertas.


Foto © Anne Brigman

Comentários

Também estou buscando esse movimento, Carla.
Grato por essa crônica deliciosamente absurda. :)
Carla Dias disse…
Espero que o movimento aconteça de modo a surpreendê-lo positivamente. Beijo, Eduardo.

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