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CONEXÃO >> Carla Dias >>


Ela se desloca daqui para ali da cidade, ônibus abarrotado de autores de histórias que poucos historiadores apreciariam contestar ou contar, que acabam veiculadas em telejornais ou conversas de vizinhos. Ela gosta de escutar o que esses autores dizem, mesmo quando calados, as histórias saltando de seus olhos. Ela mesma tem a sua história, que se equilibra nesse fio invisível que liga o daqui ao ali.

No daqui, ela é mãe de duas meninas espoletas, porém educadíssimas, que filhas dela não nasceram para dar exemplo ruim. No ali, ela se veste diferente da dona de casa que faz bolo para vender, nas horas vagas: uniforme elegantíssimo, que é trocado, antes de desbotar. Sapato com salto que, apesar de não tão alto, prejudica-lhe os pés, que ela tem de escaldar diariamente, quando de volta para casa. Cabelos devem ser penteados em coque, do jeito que lhe foi ensinado. Um fio fora do lugar pode estragar o dia do patrão.

Funcionário nenhum se atreveria a estragar o dia do patrão.

Particularmente, ela às vezes se pega imaginando como seria estragar o dia dele. Qual seria a reação? Que todos os muitos funcionários da casa temem profundamente o professor que nunca foi bom em lidar com pessoas.

As meninas se sentam à mesa e começam a contar histórias sobre seu dia. Ela escuta, pacientemente, que aprecia histórias outras, que não a sua. Em algum momento, as vozes das meninas se confundem, ficam em plano de fundo, e seus pensamentos ancoram nas cenas da casa do professor, ele sempre com a cara enfiada em um livro ou olhos fechados, cabeça recostada na poltrona, escutando música. Imagina-se caminhando pelos cômodos da casa, vestida em seu vestido estampado, em vez do severo uniforme, usando sandálias, os cabelos livres do coque. Servindo o patrão com chá de gengibre, em vez do café ralo que ele insiste em beber.

Os empregados mais antigos garantem que o patrão tem segredos. Ela só consegue se perguntar — silenciosamente, que eles não a perdoariam por tal infâmia — quem não os tem? A presença do professor não a assusta como acontece com os outros empregados. É claro que não pode se dar ao luxo de perder o emprego por causa de qualquer ousadia, mas isso não a impede de observá-lo detidamente, a ponto de ela ter se tornado perita em desviar olhar. Não a impede de ser curiosa sobre uma pessoa.

Escutou uma conversa do professor com um amigo, o único que o visita, de vez em quando. Servia café a eles, e o professor disse algo sobre astrônomos que observam o infinito em busca do onde começa o fim e tecelãs que desejam dar leveza ao mundo, fio a fio. Ela sorriu, e nem conseguiu disfarçar, que eles botaram reparo nela na hora. Desculpou-se pela intromissão, ao que o amigo respondeu: se toda intromissão fosse um sorriso, o ser humano seria menos intransigente, menos carrancudo. Ela fez um gesto com a cabeça, assentindo, e se virou para sair da sala, mas foi detida pela pergunta do professor: por que você sorriu?

Na imaginação dela, houve esse dia em que ele a convidou para se sentar e se servir de café, e eles conversaram horas sobre assuntos que ela nem tinha ideia que conhecia. Ser a única responsável pela criação de duas meninas, isso combinado às longas horas de trabalho e o extra como boleira, fez com que ela se interessasse pelo o que não fazia parte de sua realidade. Quando ajudava as filhas com a lição de casa, ela também aprendia. Aprender sempre lhe fez bem. A curiosidade ajudou a lapidar seu conhecimento. Então, sim, imaginava-se tendo conversas com o intelectual, e vivia a folhear os livros da biblioteca, sob censura dos seus companheiros de trabalho.

Ela se vira e olha para o professor. Nunca conseguiu olhar de perto o suficiente para arriscar idade. Adora tentar adivinhar a idade das pessoas. Adora quando erra feio.

Foram alguns pares de palavras para explicar que a ideia havia dado a ela uma imagem na qual pensar. Foram apenas alguns minutos de conversa para que o professor e seu amigo, um astrônomo-poeta desvairado, como o próprio se definiu, fizessem com que ela se sentasse e participasse da conversa. Foram horas falando sobre assuntos variados, alguns inéditos, nos quais ela mergulhou com sua curiosidade em polvorosa.

Não, essa não é uma história sobre como uma mulher humilde se tornou uma intelectual respeitadíssima e rica ou se casou com seu chefe intelectual, respeitadíssimo e rico. Essa é uma história sobre conexões humanas, mesmo quando elas parecem impossíveis, tamanha distância há entre o universo de uma pessoa e o de outra.

Ela continua a pegar o ônibus para chegar ao trabalho, a usar uniforme, sapato de salto e coque. Ainda é boleira nas horas vagas e atenta à educação de suas filhas. A diferença é que, às vezes, ele a convida a se sentar com ele na biblioteca. Ela bebe chá de gengibre, enquanto ele bebe seu café ralo. Ela conta a ele sobre sua vida, incluindo detalhes sobre as filhas e a aventura que é conhecê-las melhor ao mesmo tempo em que elas se descobrem. Ele conta a ela sobre a vida que não teve e sobre a que exerce, solitariamente, na sua casa de cômodos vazios.

De um jeito meio secreto, tornaram-se companheiros um do outro. Tornaram-se a conexão mais importante um do outro. E ela, finalmente, perguntou a idade dele, ao que ele respondeu, mantendo um meio sorriso: a idade de um historiador que já não tem certeza sobre o que é fato e o que é ficção.

Ela sorriu de volta.

Imagem: 'La Liseuse' © Marie Laurencin

Comentários

Que belo encontro, Carla!
Carla Dias disse…
Obrigada, Eduardo!

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