quinta-feira, 18 de outubro de 2012

SOBRE MÚSICA E GAVETAS FECHADAS >> Mariana Scherma


De todos os poderes que a música tem, o meu preferido é o fato de ela nos transportar pra uma época pela qual já passamos e a que muito provavelmente deixamos pra trás por descuido, pressa ou esquecimento mesmo. É como se algumas canções em especial tivessem o poder de abrir gavetas de sentimentos que a gente mal lembrava que tinha fechado. Sim, este texto tem uma dose ou outra de melancolia. Mas é uma melancolia gostosinha.

Essa semana passei por algum carro que tocava Always do Bon Jovi, o que acordou em mim uma adolescente de 14 ou 15 anos que dormia em sono meio profundo. Explico: eu sou filhote dos anos 90. Foi nessa década que deixei de ser criança e virei adolescente. E, como não podia ser de outro jeito, sou filhote dos anos 90 musicalmente também. Bon Jovi embalou minhas primeiras paixões e as promessas de primeiras paixões. Alanis Morissette virou quase minha melhor amiga imaginária quando as primeiras paixões se provaram um barco furado nível Titanic, só ela entendia minhas frustrações. Aerosmith me fazia ficar sem piscar na frente da MTV esperando algum clipe começar pra eu apertar o rec do videocassete (caramba, foi no século passado!). Música funcionava como minha aula particular de sentimentos.

Meu vício nas emoções que essas canções me despertavam era tão gigante que eu passava as tardes de folga traduzindo as letras preferidas e foi graças a minha pureza dos 13 anos que perguntei ao primo mais velho de uma amiga o que a Alanis queria dizer quando cantava You took me out to wine dine 69 me em Right Through You ou como assim descer em você quando ela cantava Would she go down on you in a theater? em You Oughta Know. Lembro bem a cara de como-eu-saio-dessa do pobre menino ao responder “ah, um dia você vai entender. Ela usa muitas gírias e palavrões”. Ãham! Eis aí uma lembrança que me deixa com as bochechas coradas até hoje.

O fato é que eu ouvi um trecho mínimo de Always, mas foi suficiente pra me lembrar de como era bom carregar tantas esperanças... Sei lá por que a gente vai as perdendo no meio do caminho. E olha que sempre achei o romantismo de Always meio pedante, muito exagerado quando ele diz forever and a day e ainda mais ao cantar I’ll be there till the stars don’t shine. Caro Bon, quando as estrelas não brilharem mais, você não estará ao lado de ninguém, vai por mim! Eu sou mais a favor de um romantismo pé no chão, tipo em Born To Be My Baby, we both got jobs cause there's bills to pay. Enfim...

Quando cheguei em casa, quase pedi desculpas formais a minha coleção de CD dos anos 90, que ficaram esquecidos em função dos meus momentos quase cult e mais intelectuais. Sim, eu me forcei a ser uma fanática por Chico Buarque, não deu, só gosto. Também tentei viciar em Paulinho da Viola, quase funcionou: gosto mais que o Chico, mas menos que o rei Roberto e o Lulu Santos. Meu coração é meio pop, ué.

Mas o maior pedido de desculpa mesmo foi para a minha versão romântica e sonhadora dessa época. Agora que ela acordou, não vou mais deixá-la dormir: é só apertar o play vez ou outra de uma pérola dos anos 90, que, OK, pode não ser tão valiosa e cheia de poesia quanto um Chico, mas que desperta emoções tão bonitas quanto. Bom mesmo é saber que meus sentimentos têm uma pitada de samba, um porção de rock (um pouco farofa, eu sei), um punhado de pop quase rock. Vai ver, encontrar sua essência é se achar um pouco em cada letra, pouco importa o ritmo. Mas confesso que nunca me achei no axé e no sertanejo universitário, desculpa quem é fã.


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2 comentários:

albir disse...

Mariana, que bom ler seu texto. Eu também já me obriguei a ouvir e a gostar do que "devia" ser gostado. Hoje relaxei, e vou atrás da nostalgia e do que manda o meu velho coração.

Carla Dias disse...

Pois é, Mariana, a música tem um poder e tanto quando se trata de tempo. A vida pede trilha sonora, e há sempre aquele período em que a música capricha na sua mágica.