segunda-feira, 1 de outubro de 2012

MC NEYMAR E O HOMEM DE DEUS
>> André Ferrer

Manhã. O coletivo parou. Se aquele ponto estava praticamente vazio, que eu não me iludisse! Nos próximos, haveria gente o bastante para lotar três ônibus iguais àquele.
Os gatos-pingados embarcaram e um deles — percebi logo — valia por toda uma multidão.
Lembrei-me de Tim Maia, que se declarava um cantor de funk brasileiro no estilo da Motown. Funk! Como assim? É primavera, te amo... trago esta rosa?! Nenhuma relação com o baixo nível dos dias de hoje.
O garoto avançou e ocupou o banco da frente. Camisa regata. CD player. Mochila. Boné. Correntão no pescoço. Tão doutrinado pelo estilo mostruário de camelô que era incompreensível aquela falta dolorosa (para mim e, acredito, para a maioria esmagadora dos passageiros) do acessório mais importante: fones de ouvido!
O funk, como gênero musical, consolidou-se na década de 1960. O jazz, o soul e o rhythm and blues fundamentaram um estilo novo em que a ênfase deixava de ser na harmonia e na melodia. Basta ouvir James Brown, o responsável pela fusão dos estilos, para descobrir que o elemento central do funk é o ritmo.
Compulsoriamente envolvido pela batida, ergui o queixo e descobri traços de um corte moicano ao redor do boné. O garoto estava na moda. Eu estava perdido. Calor de assar paciência. Gírias de marginal. Barbarismos linguísticos de sentido duplo. E claro: elogios à fêmea que se abaixava e esfregava o orgulho em algum lugar abaixo da dignidade em troca de ser a preferida do chefão local. Primavera, oh, primavera esquecida! Fiquei com vontade de puxar a corda e descer no próximo ponto.
No Brasil, tudo começou no Rio de Janeiro. Não nas favelas onde o samba imperava nos anos de 1960. O funk de Tony Tornado & Cia flertava com o movimento Black Power, mas não fazia o elogio do crime. Não representava facções. Não transformava as nossas meninas em cachorras. Fora James Brown, havia outras geniais influências externas, Jackie Wilson, Lionel Richie, Stevie Wonder, Marvin Gaye, todos da Motown Records. Havia, enfim, qualidade musical, poesia nas letras e muito respeito à inteligência.
Lá pelas tantas, o Mc Neymar puxou a corda. Graças a Deus: ele desceria. Então, percebi uma fila enorme no ponto seguinte. Impraticável seguir numa lata de sardinha lotada e, ainda por cima, com aquele ruído. Fiquei aliviado.
Enquanto as pessoas embarcavam, observei o garoto. Ele entrou no botequim diante do ponto. Um minuto depois, apareceu sem a mochila. Trazia na mão direita algo que logo reconheci como material de panfletagem. Sob o braço esquerdo dois cavaletes que, habilmente abertos, revelaram o sorriso de um candidato, pastor Fulano de Tal, Nº 12.969, UM HOMEM DE DEUS NA CÂMARA.


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2 comentários:

Evaristo Calixto disse...

André, não se acanhe, você estava em meio à diversidade brasileira rsrs Precioso recorte oferece das referências díspares se enquadrando no modo de vida das pessoas. Tendemos a escarnecer desse fenômeno quando ocorre entre os pobres, esquecidos de que os Big Brothers da telinha são apreciados pela classe média e pelos ricos. Hoje, a regra consiste em ter referências do mundo do crime, o funk carioca (promiscuidade) e os modismos lançados pelos jogadores de futebol (que já havia antes). Qualquer que não pertença a esse estilo de vida situa-se num universo paralelo.

Zoraya disse...

André, essa é uma tortura a que estamos expostos e da qual nao podemos escapar. O pior é que esse esvaziador de cérebros que se chama funk desperta em mim os sentimentos mais primitivos, cruzes! Beleza de crônica, hein?