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ÁRVORES EM EXTINÇÃO >> Whisner Fraga

É claro que eu tomava o cuidado de chamar o estabelecimento de “mercearia”, enquanto outros, sem a mesma sensibilidade, sustentavam que se tratava de um bar. Na verdade era um bar também, na medida em que ali se serviam bebidas alcoólicas e que era frequentado por bêbados e pedintes de toda espécie. O fato é que ficava numa esquina da rua 14 e tinha um banquinho do lado de fora, que usávamos para os encontros entre amigos.

Em frente havia um terreno vazio. Bom, afirmar que estava “vazio” era meio complicado. Só não havia nada construído nele, nenhuma casa, nenhum sobrado ou prédio. Outro dia passei em frente e, honestamente, não me lembro se vi uma construção ali. Minha memória é estranha, parece que existe só para me envergonhar. De qualquer maneira, naquela época, jogavam entulhos e outros lixos na propriedade. Os vizinhos, para não conviver com a possibilidade de alguma doença, retiravam periodicamente os objetos, limpando o local.

Um pé de tamarindo, enorme, sadio, chamava a atenção em meio ao descaso naqueles seiscentos ou setecentos metros quadrados de terra. Nós, adolescentes, adorávamos. Passávamos a tarde inteira nos deliciando com a fruta, até que saíamos dali com o céu da boca esfolado e a língua em carne viva. Não nos importávamos, pois dali a dois ou três dias estaríamos prontos para outra. É uma boa lembrança que carrego de Ituiutaba.

Hoje, posso me gabar de ter plantado seis tamarindeiros. Nenhum deles está crescido a ponto de oferecer o fruto, mas chegarão lá. O mais velho tem pouco mais de um ano e está fincado entre dois prédios, na instituição em que leciono. Mal consigo conter a ansiedade de ver a minha filha, daqui a alguns anos, tentando colher as vagens marrons dos galhos mais baixos. Plantar uma árvore é uma das sensações mais interessantes que um ser humano pode experimentar e por isso recomendo o vício.

Gostava também de jenipapo, uma baga difícil, aromática, um pouco rançosa. Tem um traço natural de álcool, como se o sol destilasse a polpa e enviasse aos de paladar pouco exigente. Vou ao varejão e não encontro jenipapo para comprar. Há dez ou mais anos não vejo as copas altas de um jenipapeiro. Encomendei uma dessas árvores numa flora perto de casa e nada. Não chegou, não conseguem encontrar a muda. Falo para as pessoas e parece que ninguém conhece, ninguém ouviu falar e eu tenho a sensação de ter descoberto algo em extinção, o que me deixa triste. Não aprecio coisas em fase de desaparecimento.

Jabuticaba, maçã, pera, uva, lichia, laranja, mexerica, mamão, quero que minha filha cresça comendo essas delícias. Ela já come, aliás. Aqui perto de casa abriram um sacolão que vende somente frutas orgânicas. Lá fazemos a festa. É mais caro sim, mas não podemos confiar nossa saúde aos agrotóxicos que infestam tudo que ingerimos. Em casa tenho uma jabuticabeira, uma figueira e uma pereira. Vou plantar muito mais, porque o mundo é mais bonito verde e as plantas nos ouvem com muito mais atenção.

Comentários

Zoraya disse…
"Minha memória é estranha, parece que existe só para me envergonhar", hahaha, adorei isso (talvez por afinidade). Puxa, que delícia de crônica. Tão boa quanto se lambuzar de caju. E que as deusas e dríades protejam vocês.

Tina Bau Couto disse…
As plantas e passarinhos nos ouvem com mais atenção e cantares e silêncios nos falam mais que mil palavras.
Lembrei de uns post apassarinhados que fiz lá no blog recentemente, seguem links para apreciação:
http://blogdtina.blogspot.com.br/2012/09/estatuto-dos-passarinhos.html

http://blogdtina.blogspot.com.br/2012/10/conferencia-dos-passaros.html

Raízes, asas, primaveras, verões, outonos, invernos e todas as lições e sabores de cada estação em nossas vidas \o/

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