sábado, 20 de outubro de 2012

OS LIVROS DE MEU PAI [ANA GONZÁLEZ]

É possível ler pessoas através dos seus livros. Eles dizem quem é seu dono, quase falam em seu nome. Recentemente desmontei um apartamento de família lidando com várias camadas: os móveis, a infinidade de trecos de cozinha e de louças, as roupas e enfim, as últimas tranqueiras dentro dos armários.

Houve também a vez dos livros - que eram muitos. Meu pai formou uma imensa biblioteca que herdei em pedaços, o primeiro tendo sido aquele com assuntos jurídicos e espiritualistas, de ciências ocultas e de teosofia. Chegara a vez das estantes, grandes e cheias de cor e brilho, que tinham lugar perto da sala de visitas.

Destas estantes, uns quatrocentos livros foram levados pelo meu sobrinho.  Sobraram outros quatrocentos, quiçá quinhentos.  Encaixotá-los para trazer para minha casa foi trabalho de Hércules. Toquei em cada um, observando nome e assunto. Em meio ao pó, procurei adivinhar o que eles guardavam. Isso foi me abrindo um mundo imenso. Como se além dessa materialidade aparente, eu pudesse então desvendar mais da pessoa que habitou esses livros.

Empilhados em caixas maiores ou menores, eles ocuparam minha sala. Por onde eu olhasse, lá estavam eles. Em cima da mesa e do tapete, nos cantos - um horror! Mas, foi por causa disso que pude discriminar detalhes das páginas, algumas  amarelecidas, outras impecáveis e intocadas, tamanhos de letra, lisura do papel e tipos de capa. Mágicas páginas, cheias de personagens e histórias, significados e imagens.

Eram muitas enciclopédias, coleções de arte, filosofia, história, mitologia e literatura que, aos poucos fui recolocando em bibliotecas de faculdades, instituições e escolas. Em inglês, a enciclopédia Britânica e  uma outra de filósofos. Outra enciclopédia devia estar cansada de tanta velhice, pelos dorsos em letras douradas um tanto desbotadas, com pedaços faltosos e esquisitices de outros tempos como a grafia do ph. Numerosas coleções de história do mundo ocidental e oriental, livros de arte em francês e em espanhol, como a dos grandes museus do mundo.


Ele, que era emocional, com rompantes, rígido, introspectivo, sonhador e idealista, lá estava presente com sua parte mais bonita, com os desejos de toda sua alma. Ele tinha ambições enormes de conhecimento. Sabia da beleza da arte e da importância da visão histórica dos fatos. Gostava de mitologia, de filosofia, de literatura. Ele era um homem renascentista, procurando extrapolar os limites de sua pessoalidade. E talvez fosse muito solitário nessa busca humanista, sem ter com quem compartilhar tais desejos.

São aspectos de meu pai, um canto de sua natureza, entrevisto numa janela aberta que só a experiência de um tempo com seus livros pode me proporcionar.  E agora, insatisfeita, procuro por ele nestes livros que são potentes aberturas para o mundo imaginário.

Saio em busca dele, andando por um longo corredor, até que se abre uma sala à minha frente, um espaço com cores sóbrias. Vejo nela um homem sentado à frente de uma escrivaninha (a sua) com laterais entalhadas em madeira escura. Há quase uma neblina no cenário, talvez de meus olhos que querem chorar. 

Muitos livros em cima dessa mesa e outros ainda à sua volta pelo chão. De óculos, ele lê um livro aberto com um lápis na mão. Um abajur a seu lado ilumina sua mão, o livro e parte de seu rosto. Mal se percebe a janela e as cortinas desse espaço que não sei se é grande ou pequeno. O tapete tem cores vermelhas. As cortinas são pesadas.

Na saudade, quase acredito que ele me olha.

"Você está presente nesses livros não é mesmo, pai?", pergunto-lhe.

Não,  não tenho resposta.

Desse encontro impossível, sobram-me seus livros, somente seus livros conversando comigo.

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9 comentários:

Heloisa Reis disse...

Que linda construção da memória!Não tinha me dado conta que os livros envelhecem com seus donos!
Parabéns Ana pela maneira linda de nos passar esses sentimentos !

Vicente Lima disse...

Parabéns, essa é a única palavra que posso pensar em dizer, pela beleza dessa obra.

Ana González disse...

Heloísa e Vicente, que bom ter vcs por aqui.Obrigada!

Zoraya disse...

Ana, essa foi uma das coisas mais lindas que já li. Obrigada

Carla Cintia Conteiro disse...

Que bonito, Ana!
A beleza nem sempre é alegre.

Beijo.

Ana González disse...

Zoraya, vc sempre aqui. Obrigada! CC, é verdade, nem sempre ela é alegre. Pelo menos, mesmo nessas situações, ela pode ser possível. Obrigada,querida. Bjss pras duas.

albir disse...

É verdade, Ana, agora que você falou, lembrei de alguém. Ele não guardava livros, embora os lesse. Distribuía, doava, devolvia. Quando morreu, entretanto, foram encontrados três livros que ele conservou. E que eram a sua cara. Parabéns pelo texto.

Carla Dias disse...

Que beleza de texto, Ana. Que beleza de sentimento, de lembrança. As pessoas que nos são caras acabam sempre estampadas nas importâncias que adotam pra vida. Beijo.

Ana González disse...

Albir! Esse é personagem de futura crônica sua! rs... Clara, e elas permanecem assim, nesses sinais, né mesmo? bjss