Pular para o conteúdo principal

OS LIVROS DE MEU PAI [ANA GONZÁLEZ]

É possível ler pessoas através dos seus livros. Eles dizem quem é seu dono, quase falam em seu nome. Recentemente desmontei um apartamento de família lidando com várias camadas: os móveis, a infinidade de trecos de cozinha e de louças, as roupas e enfim, as últimas tranqueiras dentro dos armários.

Houve também a vez dos livros - que eram muitos. Meu pai formou uma imensa biblioteca que herdei em pedaços, o primeiro tendo sido aquele com assuntos jurídicos e espiritualistas, de ciências ocultas e de teosofia. Chegara a vez das estantes, grandes e cheias de cor e brilho, que tinham lugar perto da sala de visitas.

Destas estantes, uns quatrocentos livros foram levados pelo meu sobrinho.  Sobraram outros quatrocentos, quiçá quinhentos.  Encaixotá-los para trazer para minha casa foi trabalho de Hércules. Toquei em cada um, observando nome e assunto. Em meio ao pó, procurei adivinhar o que eles guardavam. Isso foi me abrindo um mundo imenso. Como se além dessa materialidade aparente, eu pudesse então desvendar mais da pessoa que habitou esses livros.

Empilhados em caixas maiores ou menores, eles ocuparam minha sala. Por onde eu olhasse, lá estavam eles. Em cima da mesa e do tapete, nos cantos - um horror! Mas, foi por causa disso que pude discriminar detalhes das páginas, algumas  amarelecidas, outras impecáveis e intocadas, tamanhos de letra, lisura do papel e tipos de capa. Mágicas páginas, cheias de personagens e histórias, significados e imagens.

Eram muitas enciclopédias, coleções de arte, filosofia, história, mitologia e literatura que, aos poucos fui recolocando em bibliotecas de faculdades, instituições e escolas. Em inglês, a enciclopédia Britânica e  uma outra de filósofos. Outra enciclopédia devia estar cansada de tanta velhice, pelos dorsos em letras douradas um tanto desbotadas, com pedaços faltosos e esquisitices de outros tempos como a grafia do ph. Numerosas coleções de história do mundo ocidental e oriental, livros de arte em francês e em espanhol, como a dos grandes museus do mundo.


Ele, que era emocional, com rompantes, rígido, introspectivo, sonhador e idealista, lá estava presente com sua parte mais bonita, com os desejos de toda sua alma. Ele tinha ambições enormes de conhecimento. Sabia da beleza da arte e da importância da visão histórica dos fatos. Gostava de mitologia, de filosofia, de literatura. Ele era um homem renascentista, procurando extrapolar os limites de sua pessoalidade. E talvez fosse muito solitário nessa busca humanista, sem ter com quem compartilhar tais desejos.

São aspectos de meu pai, um canto de sua natureza, entrevisto numa janela aberta que só a experiência de um tempo com seus livros pode me proporcionar.  E agora, insatisfeita, procuro por ele nestes livros que são potentes aberturas para o mundo imaginário.

Saio em busca dele, andando por um longo corredor, até que se abre uma sala à minha frente, um espaço com cores sóbrias. Vejo nela um homem sentado à frente de uma escrivaninha (a sua) com laterais entalhadas em madeira escura. Há quase uma neblina no cenário, talvez de meus olhos que querem chorar. 

Muitos livros em cima dessa mesa e outros ainda à sua volta pelo chão. De óculos, ele lê um livro aberto com um lápis na mão. Um abajur a seu lado ilumina sua mão, o livro e parte de seu rosto. Mal se percebe a janela e as cortinas desse espaço que não sei se é grande ou pequeno. O tapete tem cores vermelhas. As cortinas são pesadas.

Na saudade, quase acredito que ele me olha.

"Você está presente nesses livros não é mesmo, pai?", pergunto-lhe.

Não,  não tenho resposta.

Desse encontro impossível, sobram-me seus livros, somente seus livros conversando comigo.

Comentários

Heloisa Reis disse…
Que linda construção da memória!Não tinha me dado conta que os livros envelhecem com seus donos!
Parabéns Ana pela maneira linda de nos passar esses sentimentos !
Vicente Lima disse…
Parabéns, essa é a única palavra que posso pensar em dizer, pela beleza dessa obra.
Ana González disse…
Heloísa e Vicente, que bom ter vcs por aqui.Obrigada!
Zoraya disse…
Ana, essa foi uma das coisas mais lindas que já li. Obrigada
Que bonito, Ana!
A beleza nem sempre é alegre.

Beijo.
Ana González disse…
Zoraya, vc sempre aqui. Obrigada! CC, é verdade, nem sempre ela é alegre. Pelo menos, mesmo nessas situações, ela pode ser possível. Obrigada,querida. Bjss pras duas.
albir disse…
É verdade, Ana, agora que você falou, lembrei de alguém. Ele não guardava livros, embora os lesse. Distribuía, doava, devolvia. Quando morreu, entretanto, foram encontrados três livros que ele conservou. E que eram a sua cara. Parabéns pelo texto.
Carla Dias disse…
Que beleza de texto, Ana. Que beleza de sentimento, de lembrança. As pessoas que nos são caras acabam sempre estampadas nas importâncias que adotam pra vida. Beijo.
Ana González disse…
Albir! Esse é personagem de futura crônica sua! rs... Clara, e elas permanecem assim, nesses sinais, né mesmo? bjss

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …