quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A IMPORTÂNCIA DESSE OLHAR >> Carla Dias >>


É isso: pessoas nascem, vivem e morrem, às vezes deixam um legado a ser apreciado pela humanidade, em outras passam pela vida ao toque da tranquilidade escolhida. E muitos também deixam marcas que se tornam cicatrizes não somente imputadas às pessoas que viveram a situação, mas também à história do seu povo.

Há quem insista que a vida é somente aquela que vive, criando muros que delimitam o alcance da sua existência. Essas pessoas chamam isso de segurança, como a que oferecem a porta do barraco ou as câmeras do condomínio. Frágil segurança, não?

Viver ligado somente ao que compreende e atende às necessidades, às pessoas que vivem no mesmo ambiente, fechar-se ao que acontece a nossa volta não é, e nunca foi, a melhor maneira de se escrever a própria história, quiçá a de um país. E não insinuo que devam abrir as portas de seus barracos ou desligar as câmeras de segurança do condomínio. Falo sobre abrir os olhos, apenas isso, porque o resultado pode ser gratificante para o indivíduo e definitivo para o coletivo.

Nós progredimos, e se mencionarmos sobre como as coisas caminhavam há algumas décadas, fazendo um paralelo com como elas são agora, só a tecnologia apontará para mudanças estratosféricas. Nós evoluímos porque somos curiosos de plantão, porque pensamos o impensável. Evoluímos como profissionais capazes de fazer progressos científicos, de pensar o planeta de uma forma muito mais confortável ao ser humano.

Há muito a ser celebrado. 

Há também muito a ser repensado.

É que, frequentemente, nos vemos presos nessas bolhas onde construímos a nossa realidade que é somente parecida com os sonhos que tivemos. E também à sensação de que basta ser alguém nesse meio escolhido. Nosso olhar fica embaçado, cuidamos bem dos nossos afetos e colocamos nossos planos em andamento, como se no mundo mais nada acontecesse. Como se os dramas fossem apenas os que encaramos diariamente, empapuçados na rotina da dinâmica que mantemos com os que compartilham do mesmo espaço no mundo, na existência.

Escutei de uma pessoa esclarecida, que considero inteligente e conhecedora das mazelas da vida, que o mundo anda tão ruim que é melhor mesmo continuar a levar a vidinha de sempre, sem receber notícias que em nada tenham a ver com ele. Sabe como? Desligar-se do que aflige aos outros, criar um texto pronto para justificar a falta de importância com a qual muitos são tratados. Tratar como “coisas da vida” o fato de que a miséria ronda os arredores, que há sim quem se alimentaria por dias do que você comeu no jantar. De que há corrupção na política, na saúde, há conivência que amplifica a violência. E desrespeito com aqueles que, privados da própria cultura, são agora tribos que recorrem ao impossível para não serem partidas ao meio. E isso tudo, a meu ver, não são coisas da vida... São coisas do homem que, tendo sucesso no progresso, esqueceu-se de evoluir como ser humano.

É claro que o meu universo me conforta. Eu tento mantê-lo de forma que isso aconteça, é o que todos buscamos: uma vida que seja boa de ser vivida. Mas não fechar os olhos tem me ajudado de um jeito que qualquer conquista, ainda que o prazer através de carnês oriundos da sessão de eletrônicos de uma loja, não seja a última. E, principalmente, que não sejam apenas as que enfeitam o cenário da minha realidade.

Não é preciso abrir as portas dos barracos ou desligar as câmeras de segurança dos condomínios. Não estou panfletando sobre você ser outro que não esse que escolheu ser. Abrir os olhos, observar o que acontece a sua volta, pode colocá-lo na posição de, algum dia, ser uma das pessoas das quais o conhecimento e a opinião possa se juntar a de outros, fazendo a diferença na vida daqueles que dependem desse olhar mais atento.

Não acredite na bobagem que corre solta por aí. Uma pessoa pode sim fazer toda a diferença. 




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