quinta-feira, 11 de outubro de 2012

EM BOM PORTUNHOL >> Fernanda Pinho


Ele me envolve em seus braços, me dá um beijo terno e diz, sinceramente:
-        -- Te amo, meu mico.
Diante da minha cara de surpresa, ele pensa que não ouvi bem e reforça:
-        -- Meu mico, meu mico. Você é muito mico sabia?
Não, não sabia, mas suspeito o que esteja acontecendo. Minha cara de confusão se transforma na minha cara de “você não sabe o que está falando”, frequentemente utilizada por pessoas que se casam com estrangeiros.  E logo vem a explicação. Em espanhol, mico/macaco se diz “mono”. E como esses animais são muito engraçadinhos, a palavra “mono” também virou sinônimo de “fofo” (não sei se em todos os países de língua espanhola mas, pelo menos, aqui no Chile). Acontece que ele achava que, no Brasil, era o mesmo, já que me ouvia dizer com frenquência “nossa, que mico” – não sei porque diabos ele pensava que eu achava fofas as situações vexatórias, mas esse não é o caso. O caso é que assim nasceu o imbróglio. Um entre tantos.

Ser casada com um estrangeiro, além de todas as coisas legais que um casamento proporciona, ainda tem esse bônus linguístico que torna a vida muito mais leve. Todo dia é uma nova descoberta, para os dois. Ou uma nova invenção. Algumas soam tão fofinhas (ou monitas, como queiram) que nem quero corrigir. Por exemplo, houve um tempo em que ele me chamava de “raina”, uma mistura de rainha com “reina”, que é como se diz em espanhol. Achava tão charmoso que nunca disse nada. Infelizmente, depois de um tempo ele aprendeu sozinho.

O chato é isso. Ele aprende muito rápido e muito bem. E aprende coisas que fogem do meu controle. Outro dia me disse que não-sei-o quê era “show de bola”. Fiquei chocada. Porque eu não sou o tipo de gente que fala “show de bola”. Nada contra. Minha mãe fala e acredito que foi dela que ele ouviu isso.  Ele é assim. Ouve, armazena e já aplica na próxima frase.

Eu já sou mais devagar. No início do nosso relacionamento passei um bom tempo, com toda a minha mineirice, desconfiada de que ele tinha alguma atividade escusa, porque sempre dava “propina” aos frentistas dos postos de gasolina. Como estava no início resolvi, não falar nada. Mas então observei que ele dava propina pro garçom, pra embaladora do supermercado, pro manobrista. Elementar! “Propina” é gorjeta. Constatei aliviada.

Como somos assim, ele rápido, eu mais lenta que internet discada, optamos por, na maioria das vezes, conversar em português. E acho que estou fazendo estrago, pois já flagrei o chileno falando português dormindo! Pelo menos só eu ouvi. O pior aconteceu num desses dias de mal gosto em que tivemos que ir a um velório. E ele, sem a menor cerimônia, me apresentou em bom português para quase todos os presentes. E eu, sempre viajando, pensei “nossa, como o falecido tinha conhecidos brasileiros”, antes me tocar de que, obviamente, ele estava trocando as estações.

Ele troca as estações, eu troco as bolas, as buelas, e todo o resto. Falamos a minha língua, a dele e mais uma paralela que só a gente entende. E mesmo nessa confusão de idiomas, nunca encontrei alguém me entendesse tão bem. 


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3 comentários:

Paula irmã disse...

Adorei esta crônica!
Realmente é muito engraçado ve-lo inserindo palavras um pouco sem contexto nas frases! Ainda que poucas vezes, já me diverti, imagino você: todos os dias!!! hahaha

Ana Gerhardt disse...

Falamos a minha língua, a dele e mais uma paralela que só a gente entende. [2]

kkkkkk
tudo igual, Fernanda!

Pinuccia Cargnino disse...

Excelente!!!!! Com esses forasteiros nenhum dia é igual ao outro!!!