segunda-feira, 22 de outubro de 2012

NÃO - 2ª parte >> Albir José Inácio da Silva

(Conceição chegou da fábrica e contou pra mãe que uma colega estava sendo assediada pelo encarregado. A mãe desconfiou que não fosse uma colega, e contou a história de uma ancestral, Filisbina, que nasceu num navio negreiro, cresceu numa fazenda e despertou a cobiça do filho do patrão).

Os tempos estavam mudados. Padre se metia em tudo que acontecia na Fazenda, rezava missa na senzala e batizava negrinho que nascia. Os abolicionistas botavam as garras de fora, berrando contra castigo em cativo preguiçoso. Era preciso ir devagar, na conversa, sem escândalo. Por isso patrãozinho ofereceu dois metros de tecido e um papagaio. Prometeu ainda tirar o irmão de Filisbina do eito e botar pra cuidar dos cavalos, que era o sonho de qualquer escravo. Mas Filisbina disse não.

Não, primeiro porque tinha nojo daquele sinhozinho que fazia questão de açoitar pessoalmente, só de maldade, só pra ver a pessoa gritando. E não, porque andava de rabicho com um capoeirinha que vivia rondando a Casa Grande por causa dela.

Disse não, e sinhozinho recrudesceu:

- Além do pano e do papagaio, eu tenho também o relho e o tronco. E você, Filisbina, tem um irmão e uma pele lisinha que nunca viu chicote.

Filisbina herdara a teimosia da mãe, que venceu a morte no navio. Disse não, e ainda botou barriga do capoeira. Depois passou meses escondida na cozinha, sob a proteção de sinhá.

Mas Sinhô e Sinhá viajaram pra Corte porque era tempo de coroação do principezinho. E o demônio se espalhou.

O irmão de Filisbina morreu no tronco e o capoeira morreu de tiro. Ela também passou pelo tronco mas foi vendida, com a barriga lanhada de chicote, porque prenhe valia um bom dinheiro, e sinhozinho já tinha que explicar prejuízo de dois negros.

Filisbina deu cria assim que chegou a outra fazenda. E teve outros filhos, e ficou velha, e os filhos cresceram, e tiveram filhos. Filisbina chegou a ver o fim do cativeiro e foi morar na favela, onde morreu pouco depois com muitos anos. E a favela é a mesma onde conversavam Conceição e a mãe. Depois da história, as duas foram dormir com a angústia do hereditário sofrimento.

Conceição acordou na hora de sempre, foi para a fábrica e subiu direto para a administração. Uma a uma as meninas foram chamadas. Ainda estavam lá quando chegou a vez do encarregado. Ele foi rapidamente despachado e saiu com olhos que flamejavam na direção delas.

Voltaram todas ao trabalho, ouvindo da nova chefe, Conceição, a história do não da Vó Filisbina.



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5 comentários:

Carla Dias disse...

Exercendo o direito ao respeito. Boa, Albir. Beijo.

Debora Bottcher disse...

Excepcional!!! Beijo.

Ana González disse...

Há maneiras e maneiras de se passar uma mensagem, né mesmo? Adoro seus causos. Bj

Zoraya disse...

Puxa, Albir, vamos levar esses seus "causos", como disse a Ana, para as escolas! Todos, sem restrições a cores, têm o direito de dizer "nao" ao abuso. E que melhor maneira de ensinar que nao a lúdica? Você, afinadíssimo, como sempre. Beijos

silvia tibo disse...

Bela forma de chamar a atenção para um tema tão sério como o assédio, ainda muito recorrente no ambiente de trabalho, né? Adorei a leveza da abordagem, Albir. Abraço!