Pular para o conteúdo principal

NÃO - 2ª parte >> Albir José Inácio da Silva

(Conceição chegou da fábrica e contou pra mãe que uma colega estava sendo assediada pelo encarregado. A mãe desconfiou que não fosse uma colega, e contou a história de uma ancestral, Filisbina, que nasceu num navio negreiro, cresceu numa fazenda e despertou a cobiça do filho do patrão).

Os tempos estavam mudados. Padre se metia em tudo que acontecia na Fazenda, rezava missa na senzala e batizava negrinho que nascia. Os abolicionistas botavam as garras de fora, berrando contra castigo em cativo preguiçoso. Era preciso ir devagar, na conversa, sem escândalo. Por isso patrãozinho ofereceu dois metros de tecido e um papagaio. Prometeu ainda tirar o irmão de Filisbina do eito e botar pra cuidar dos cavalos, que era o sonho de qualquer escravo. Mas Filisbina disse não.

Não, primeiro porque tinha nojo daquele sinhozinho que fazia questão de açoitar pessoalmente, só de maldade, só pra ver a pessoa gritando. E não, porque andava de rabicho com um capoeirinha que vivia rondando a Casa Grande por causa dela.

Disse não, e sinhozinho recrudesceu:

- Além do pano e do papagaio, eu tenho também o relho e o tronco. E você, Filisbina, tem um irmão e uma pele lisinha que nunca viu chicote.

Filisbina herdara a teimosia da mãe, que venceu a morte no navio. Disse não, e ainda botou barriga do capoeira. Depois passou meses escondida na cozinha, sob a proteção de sinhá.

Mas Sinhô e Sinhá viajaram pra Corte porque era tempo de coroação do principezinho. E o demônio se espalhou.

O irmão de Filisbina morreu no tronco e o capoeira morreu de tiro. Ela também passou pelo tronco mas foi vendida, com a barriga lanhada de chicote, porque prenhe valia um bom dinheiro, e sinhozinho já tinha que explicar prejuízo de dois negros.

Filisbina deu cria assim que chegou a outra fazenda. E teve outros filhos, e ficou velha, e os filhos cresceram, e tiveram filhos. Filisbina chegou a ver o fim do cativeiro e foi morar na favela, onde morreu pouco depois com muitos anos. E a favela é a mesma onde conversavam Conceição e a mãe. Depois da história, as duas foram dormir com a angústia do hereditário sofrimento.

Conceição acordou na hora de sempre, foi para a fábrica e subiu direto para a administração. Uma a uma as meninas foram chamadas. Ainda estavam lá quando chegou a vez do encarregado. Ele foi rapidamente despachado e saiu com olhos que flamejavam na direção delas.

Voltaram todas ao trabalho, ouvindo da nova chefe, Conceição, a história do não da Vó Filisbina.

Comentários

Carla Dias disse…
Exercendo o direito ao respeito. Boa, Albir. Beijo.
Debora Bottcher disse…
Excepcional!!! Beijo.
Ana González disse…
Há maneiras e maneiras de se passar uma mensagem, né mesmo? Adoro seus causos. Bj
Zoraya disse…
Puxa, Albir, vamos levar esses seus "causos", como disse a Ana, para as escolas! Todos, sem restrições a cores, têm o direito de dizer "nao" ao abuso. E que melhor maneira de ensinar que nao a lúdica? Você, afinadíssimo, como sempre. Beijos
silvia tibo disse…
Bela forma de chamar a atenção para um tema tão sério como o assédio, ainda muito recorrente no ambiente de trabalho, né? Adorei a leveza da abordagem, Albir. Abraço!

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …