quarta-feira, 31 de outubro de 2012

SOLITÁRIOS DISTRAÍDOS EM VARANDAS
>> Carla Dias >>


Fim de semana. Vizinho dela há anos, ele a observa quando a moça decide tomar sol na varanda, sentando-se em uma confortável poltrona para observar horizonte. Ela não sabe o que ele faz da vida, mas sim que o moço gosta de ler, porque sempre que o vê, ele está em companhia de um livro.

Nunca se falaram, trocaram olhares uma vez, a primeira em que foram até a varanda ao mesmo tempo. Depois disso, aprenderam a se ignorar, melhor remédio quando se deseja estar a sós, mas a varanda é colada à do vizinho.

Ela se acha uma pessoa de sorte, porque seu vizinho é silencioso, raramente tem companhia, não a importuna com problemas de seu apartamento. Ele acha que ganhou na loteria, porque sua vizinha gosta de música, mas o gosto deles é parecido, então ele não se incomoda quando ela extrapola. Até abre a porta que dá para a varanda, para escutar melhor a trilha sonora do dia.

Ela janta às sete, todos os dias, sem margem para atraso. Às nove já está na cama, porque acorda às cinco para se arrumar para o trabalho. Ele rumina comida de micro-ondas, depois que anoitece. A hora não importa. Vai para a cama quando sente vontade, às vezes dorme no sofá mesmo, mas às seis horas já está de pé, aprontando-se para o trabalho.

Nem mesmo essa narradora aqui sabe o que eles fazem da vida.

Mas ambos voltam aos seus apartamentos às seis, vinte minutos depois, no máximo, em dia em que o trânsito está complicado. Ela tira os sapatos, alonga-se e vai até a varanda. Observa a cidade, pensa no dia, no passado, no presente, no futuro, e depois, vai para debaixo do chuveiro. Após o banho, prepara o jantar, sempre algo simples, rápido e saudável. Ele arranca a gravata, como se estivesse se libertando de correntes. Praticamente salta na geladeira, em busca de uma cerveja gelada. Tira os sapatos, as meias, gosta de pisar no chão frio, depois de dia escaldante. Vai até a varanda, observa a cidade até o último gole.

Em determinado momento da noite, eles vão até a varanda ao mesmo tempo. Ela com sua taça de vinho e ele com o seu livro. Ela bebe, em silêncio, escutando ele folhear as páginas. Ele folheia as páginas, em silêncio, atento ao barulho da taça ao ser colada sobre mesinha. E durante essa sinfonia de sons que para eles já são cotidianos, eles se preparam para a solidão que os acompanha no interior de seus apartamentos.

Ela responde alguns e-mails de trabalho. Ele liga para a filha para desejar boa noite. Ela liga para a mãe para dizer que já está em casa. Ele escreve e-mails ao irmão falando sobre trocar de emprego. Às nove ela está na cama e ele no sofá, encarando o primeiro dos vários episódios, que assistirá durante a noite, dos seus seriados preferidos.

Ele nasceu no bairro onde vive e lá se casou e lá viveu e lá se separou e lá se refez da separação. Ela nasceu no bairro onde vive e lá fez seus planos, lá viveu, lá depositou as suas esperanças. Ambos acreditavam que, na idade que têm, suas vidas seriam bem diferentes.

Ela abre os olhos, sentindo que algo está diferente. Salta da cama e olha para o despertador: sete horas! O irmão cansou de dizer a ela que, além de todas as funções que ela conhece, o celular também é um ótimo despertador. Só que ela, apegada à lembrança do pai, não consegue se desfazer do presente que ganhou dele, há décadas, e o usa com exclusividade: um rádio relógio digital bege. Obviamente, ele falha quando falta energia.

Ele decidiu que ontem foi seu último dia de trabalho, que não voltaria ao lugar que o deixa, na melhor das hipóteses, deprimido. Acordou às seis, mesmo não tendo colocado o despertador do celular para trabalhar. Uma hora depois, seus pensamentos foram apontando para a pensão e os estudos da filha, o dinheiro que ainda deve para o pai, a televisão que está pagando parcelado.

Essa narradora continua sem saber o que eles fazem da vida, mas até que tem noção do que a vida pode fazer por eles. De tão distraídos que são, é ela que tem de resolver o desfecho.

Ela conversa rapidamente com o zelador, respondendo que não comparecerá à próxima reunião de condomínio, porque fará uma viagem de negócios. Ele sai do elevador e o zelador dá as coordenadas da reunião ao que ele responde com a resposta de sempre: “não vou à reunião de condomínio, minha irmã, a dona do apartamento é que vai”.

É a primeira vez que eles se encontram em outro ambiente que não o das suas varandas. Tudo soa muito estranho, como a maquiagem dela, que revela que a moça gosta dos tons ocres. E o tipo alinhado dele, que mostra que o moço sabe ser refinado. Eles botam reparo na versão hall de prédio residencial um do outro. Sorriem por cortesia, desviam olhares, enquanto escutam o zelador desfiar explicações sobre a reunião, informações que o síndico exigiu que ele espalhasse como se espalham – rápida e efetivamente – as fofocas. E apesar de ela querer perguntar o título do livro que ele está lendo e ele do vinho que ela gosta, eles voltam suas atenções ao zelador que, já sem palavras para dizer, os encara, esperando resposta. E eles sorriem um sorriso sem graça e vão embora, cada um para um lado, quando do lado de fora.
Como narradora, eu preciso me meter nessa história...

Eles não tiveram uma vida de novela com final feliz, como vocês devem ter idealizado, em algum momento. Não se esqueçam de que essa história é sobre solitários distraídos demais, que demoraram muito tempo para se reconhecerem, e que isso basicamente se aplica a todos os sentidos das vidas deles. Muita água passou por debaixo dessa ponte, antes do dia em que eles perceberam que a melhor coisa a fazer era juntar as varandas. Os dois apartamentos foram transformados em um com capacidade para abrigar a família que eles queriam constituir, com direito a três filhos desejados e a filha que ele tinha do primeiro casamento.

Os filhos não vieram, e um dos quatro quartos foi transformado em uma bela biblioteca, anos depois. A filha dele já era independente, então o quarto dela foi transformado em escritório. Pouco depois, eles decidiram que seria ótimo ter uma sala de estar maior, para receber os amigos e a família e disfarçar a decepção de estarem sós um na companhia do outro. E lá se foi outro quarto, agregado ao espaço comum da casa.

Eles não tiveram uma vida de novela com final feliz. Os altibaixos os fizeram suspeitar, e por mais de uma vez, de que melhor mesmo seria se nunca tivesse um entrado no universo do outro. Ela descobriu que ele era leitor assíduo da literatura que muito pouco a agradava. Ele descobriu que ela, moça que parecia tão descolada naquelas noites de varanda, era fã dos vinhos mais baratos do supermercado.

Mas não se apressem na conclusão do desfecho, porque eles foram felizes durante a vida que passaram juntos. Não do jeitinho que vocês ou o autor de novelas imaginaram. É que, como bons solitários e talentosos distraídos, sabiam que precisariam voltar ao passado, de vez em quando, para resgatar percepções.

As varandas, eles fizeram questão de manter separadas.

Às vezes, ele afrouxa a gravata, pega um livro e vai lê-lo na sua varanda. Às vezes, ela pega uma taça de vinho e se senta na sua varanda. E essa distância simbólica, essa encenação de quando eles se percebiam de forma muito mais atenciosa, distraindo-se um com a presença do outro, apesar de fazerem de conta que não se notavam, é que refresca a história que construíram juntos, que os permite revitalizar o sentimento.

Posso dizer, como narradora dessa trama sem tramoias, que distrair-se com o outro pode cultivar felicidade.

carladias.com



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3 comentários:

Zoraya disse...

Só uma palavra: maravilhoso.

Li Azevedo disse...

Amei! Parabéns...e a vida real é tão mais bela e aconchegante pra mim do que certos floreios e cenas falsas de propaganda de margarina. O belo é viver, é amar, e pertimir-se ser feliz. Nada é um mar de rosas e saber disso nos tira um peso enorme e nos dá mais liberdade para seguir.

Carla Dias disse...

Zoraya... Obrigada :)

Li... Dito com muita propriedade. A vida real tem sim a sua beleza. Beijo.