quinta-feira, 4 de outubro de 2012

VIVENDO E APRENDENDO... A DIZER NÃO >> Mariana Scherma



Saber dizer não é dessas tarefas que exigem mais coragem do que dizer sim. Vai ver é por isso que a gente se obriga a fazer tanta coisa que não queria com amigos que, mais pra frente, se mostram tão desconhecidos. Eu mesma já perdi um tantão de livros emprestados porque, quando era adolescente, morria de medo de desagradar alguém, e ia emprestando. Quando via que a devolução estava atrasada ou esquecida, ensaiava 387 jeitos de pedir de volta e desistia porque, afinal de contas, eu já tinha lido o livro mesmo, ué. Depois, quando você aprende a inventar desculpas pra não emprestar seus livros, você se vê obrigada a dizer sim pra uma festa esquisita em plena noite de chuva fria (desculpa, edredom) pra não decepcionar o fulano. O desafio de dizer não nunca acaba, senhor!

Por isso, eu admiro tanto pessoas que dizem não como quem diz oi. E o jeito de uma pessoa lhe dizer não diz muito sobre ela. Você pode ser honesto sem perder a ternura e, emendado ao não, dar uma desculpa (nem que seja mentirosa, mas é só aquela mentira necessária pra boa convivência). Você pode ser só honesto, tipo não, eu não quero, vou ficar em casa ou não, só empresto depois que você devolver aquele outro livro (cadê a coragem pra ser assim?). Você pode dizer sim e voltar atrás, por e-mail, torpedo ou in box no Facebook (eis aí o não típico dos covardes). Você pode mandar um não por algum intermediário, com um pedido de desculpa (ou não). Você pode dizer não como uma amiga querida sempre diz: “se der, eu apareço!”. Ou você pode ficar só no olhar de desprezo, aquele que grita um não antes mesmo de alguém perguntar ou pedir qualquer coisa (mulheres de TPM drástica e gente que nunca sorri emitem essa vibração do não no olhar). E eu sinto admiração zero por esse último jeito de falar não.

Dizer não é dessas tarefas duras se você se colocar no lugar de quem ganhou a negativa (e eu sempre me coloco). Imagine só, você que preparou a maior festa para comemorar com os amigos, os colegas e os conhecidos, só receber meia dúzia de convidados... Pesadelo. Vai ver é por isso eu odeio festa de aniversário desde pequena, quando era minha mãe que as organizava. Eu ficava tão tensa na véspera porque vai-que-ninguém-aparece. E pra piorar minhas festinhas eram sempre no começo das férias... Não sei se por amizade ou pelo amor ao cachorro-quente e brigadeiro da minha mãe, meus aniversários de infância sempre lotavam. Ufa.

E quando você cria coragem pra dizer não é libertador. Ainda mais porque você se sente livre e descobre que está seguro de si (e não importa a opinião alheia, quer dizer, importa bem pouco). Levou muito tempo pra eu dizer não sem perder o sono na noite seguinte, me custou alguns livros queridos (Primo Basílio e Alta Fidelidade, onde estarão vocês? Tomara que com alguém que lhes dê o devido valor), me custou algumas noites em cima do salto alto pensando será-que-já-posso-ir-embora-sem-ficar-chato? E o mais engraçado é que o sim que eu disse nessas ocasiões foi para pessoas que nem fazem parte da minha vida mais. Eu desperdicei alguns sim, ou melhor, eu desperdicei a chance de aprender a dizer não mais cedo. Falar não custa mesmo algumas sessões de terapia. Mas ainda prefiro não saber dizer não direito a abusar das pessoas que têm essa dificuldade.







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Um comentário:

Zoraya disse...

Oi Mariana, bem vinda ao Crônica! Tem gente que já nasce com essa bênção que é dizer nao nas horas certas, outros, como eu e você, tivemos de ralar um pouco. Mas, como vc disse é libertador e maravilhoso!