sábado, 3 de setembro de 2011

AMOR POR CONTRATO [Debora Bottcher]

Jennifer Lopez e Catherine Zetta-Jones fizeram acordos milionários para 'garantir' que seus respectivos cônjuges mantenham a linha. Para a primeira, parece que nem isso funcionou - já que, recentemente, ela anunciou a separação. Alguns anos atrás, Julia Roberts causou alvoroço na mídia quando pagou um milhão de dólares para a ex-mulher de seu noivo liberar o divórcio: foi um caso literal de 'compra de marido'.

O troca-troca de parceiros não tem limite: as relações estão cada vez mais descartáveis e muito embora os solitários não se cansem de lastimar sua condição, investir é coisa do passado: ninguém quer relevar, reconsiderar, rever suas muitas vezes exageradas exigências, e o resultado é sempre mais solidão. A modernidade mudou, entre tantas coisas, a maneira de amar.

Houve um tempo em que o sentimento supremo era regido unicamente pelo delírio, pela paixão, pelo completo e total desinteresse: nada importava, exceto estar junto de quem se amava. Nossos poetas adoeciam - até morriam! - longe de suas amadas: a literatura era puro ardor - os melhores poemas foram escritos nos séculos passados... Os primeiros textos para teatro resplandeciam amores impossíveis e trágicos, mas nunca fugiam do foco central: acima de tudo, a sublime elevação do espírito.

Hoje, novas eras, a coisa toda está do avesso - e nem dá pra falar que é por conta da liberação feminina. Será mesmo que ficamos mais espertas ou estamos atestando cada vez mais nossas inseguranças? A quem queremos enganar: a nós ou aos outros?

Nada me soa mais ridículo do que manter alguém fiel através de um contrato. O casamento já começa errado: se preciso de um documento por escrito, é porque não confio no meu parceiro e isso, por si só, já acena um razoável fracasso - além do que, isso não deveria ser um trunfo só das mulheres, já que atualmente elas também engordam as estatísticas da tal 'pulada de cerca'. E mesmo com o papel nas mãos, registrado em cartório em cinco vias de igual teor, não há garantia de que não se venha a passar pela humilhação e o ridículo da traição.

Ah! Mas aí o 'mocinho' desembolsa milhões de dólares! É verdade: entre ser traída e rica ou traída e pobre, a primeira opção soa mais convidativa. Mas nem todo dinheiro do mundo nos livra do susto, da indignação, da dor por conta de tal exposição. E aí, creio, pouco importa a conta bancária - como disse numa entrevista Adriane Galisteu, "em algumas situações, dinheiro não serve pra nada..." Ela deve saber do que estava falando...

Acho que nunca deixarei de me assombrar com as paixões paralelas: claro que entendo que ninguém está livre de envolver-se com uma terceira pessoa - quem pode controlar os sentimentos?, já questionei outras vezes -, mas acho que isso tem mais a ver com a indisponibilidade de investir no que já foi bom, do que propriamente com encantar-se com um desconhecido qualquer.

Sem dúvida que o novo - que pode causar medo na mesma medida que prazer - pode soar, num primeiro momento, mais atrativo - inclusive porque ativa emoções que podem estar adormecidas pela rotina.

Mas o que nos falta é entender que sempre seremos sugados pelo dia-a-dia - que transforma o belo em comum - porque nos acostumamos muito rápido com tudo - e isso tanto pode ser bom, como não.

Seja como for, não se pode esquecer que encontrar alguém não é tarefa fácil - como pode parecer a quem está entediado com seu parceiro atual. E que, de qualquer maneira, é preciso rever-se e doar-se; de outra forma, nunca se experimentará a plenitude, ainda que se escolha comprar e trocar pessoas, ou, pior, amarrá-las com contratos.

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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Boas reflexões, Debora. O curioso é que, em astrologia, a casa do casamento é a mesma dos contratos.

Marilza disse...

Percebo que o amor, de forma, geral esfriou. Nas relações humanas como um todo: família, amigos, amor pelo próximo. Amor solidário, que nada pede em troca.

Rafael Vespasiano disse...

Debora, parabéns pela crônica, esta é bastante reflexiva e atualíssima. Lembrou-me algumas reflexões que Zygmunt Bauman faz em seus livros, exemplo "Amor Líquido". Parabéns pelo seu trabalho no blog. Abraços cordiais!