quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O PÁSSARO >> Carla Dias >>

Há um pássaro que há dias mora na antena da minha televisão. Não sei que pássaro é, pois faltei às aulas que me formariam uma ótima taxonomista. Minha melhor amiga se desapontou com a minha inabilidade em reconhecer um pássaro, mas apenas para fugir da questão: também ela não sabe que pássaro é este que mora na antena da minha televisão.

A tristeza da minha amiga durou pouco, somente até ela perceber que sou uma colecionadora e tanto de pássaros de origami, além de mestra em desejar enveredar pelo aeromodelismo. Mas o que realmente me encanta é observar barquinhos de papel a navegarem na banheira.

Eles não afundam... Transformam-se. Misturam-se à água morna de um mar dos que sentem tremenda falta de sal, de sol, de céu. E que, cansado da brincadeira da menina, esgueira-se pelo ralo.

O pássaro parece até um dos bibelôs que enfeitam a minha estante. Imóvel, altivo e silencioso. Pouco canta o tal, respeitando o silêncio como poucos o fariam. Mas aqui embaixo, contemplando o telhado, olhos grudados no pássaro, inquieta-me essa discrição toda. Que pássaro não quer cantar seu canto, como se o show fosse somente dele, e mostrar as suas asas em voos ora delicados, ora ousados?

Minha amiga se senta ao meu lado, mordiscando um pedaço de pão de ontem. Isso é uma coisa dela. Adora pão amanhecido, como quem adora o fato de ter acordado, ao invés de ter se perdido na profundidade da noite. Há um quê existencial na relação dela com o pão que já perdeu o seu frescor, assim como um medo não revelado da morte. Eu já a alertei: quer comer pão amanhecido, tudo bem, porque gosto se discute sim, porque é saudável e nos ajuda a compreender e a respeitar o gosto do outro. Porém, dia desses - e eu digo isso a ela com a severidade de uma amiga de infância que nunca deixa de falar bem do perfume do pão que acabou de sair do forno -, ela terá de experimentar do novo, do fresco, do inédito. Porque a vida é assim, minha amiga. Não sou eu bancando a filósofa de botequim, tampouco tentando reconstruir a identidade dela ou apaziguar os seus desfechos. A vida é frente e verso e avessos e antigo e novo e tantas coisas e sentimentos diferentes.

Enquanto observamos o pássaro, tão silente e estático quanto agora há pouco, ela rasga o pão e me dá um pedaço, que eu mastigo lentamente, enquanto teço teorias sobre o pássaro que mora na antena da minha televisão.

Dentro de casa, o ator da novela se engasga e minha mãe não entende o que ele diz. Ela grita para que escutemos: culpa do pássaro que mora na antena sem pagar aluguel. Permitimo-nos permanecer alheias à braveza de minha mãe por causa da interferência na imagem da televisão. Talvez não tenha nada a ver com o pássaro que, eu juro, não mexeu uma pena, enquanto o ator se engasgava. Vai ver ele é um ator que se engasga nas falas mais complexas. Além do mais, interferência é o tipo de coisa que sofremos o tempo todo, e de tantas formas...

Minha amiga diz, sem tirar os olhos do pássaro ou o pedaço de pão da boca, deseducada, mas de um jeito ingênuo. Ela diz que sofreu interferência da revista que sua irmã mais velha adora ler, e diz que é a melhor para as mulheres deste mundo. Eu sorrio, porque sei que revista é essa, e de jeito nenhum ela tem distribuição mundial, portanto não há como ser melhor para as mulheres do mundo inteiro, já que elas nem sabem da existência da tal. E pergunto que interferência foi essa, e minha amiga engole o pão: de acordo com o teste que eu fiz, da revista, como mulher adulta, descolada e propensa à felicidade, preciso perder 10 quilos, urgentemente, renovar o guarda-roupa, frequentar salões de beleza da zona oeste e programar um lifting facial para daqui um ano, para me tornar, também, completa.

E caímos numa gargalhada que assusta o pássaro, que mexe a cabeça em busca da origem de tanto barulho, e minha mãe grita para ficarmos quietas. Abafamos as gargalhadas, mãos na boca, e eu me curvo para me aproximar um pouco mais da minha amiga e cochichar: se perder mais um quilo você vai sumir...

E caímos na gargalhada histérica novamente.

Minha amiga confessa, um pouco envergonhada, que deve ser bom ser completa, ao que dou de ombros, pregando que não somos carros para sermos equipados com todos os acessórios disponíveis para que outra pessoa desfrute dele. Somos sim pessoas, sintonizadas na frequência das mudanças que nos cabem, de acordo com o que cada um de nós experimenta.

O pássaro que mora na antena da minha televisão me inquieta. Não conta segredos, não promove performances de rock’n’roll. Com certeza não lê revistas que diz às mulheres, que sequer se tornaram mulheres ainda, que elas não são boas o suficiente para se sentirem completas, nem que seja até a próxima falta. Muitas delas passarão a vida tentando se transformar em um alguém que jamais serão.

A noite chega e minha amiga vai para a casa dela e eu para o meu quarto. Adormeço embalada em pensamentos sobre pássaros mudos e de asas quebradas, novelas engasgadas, mães esbaforidas, pão de ontem, amiga incompleta, revistas idiotas. E quando amanheço, sinto um vazio e saio correndo para fora de casa.

O pássaro que mora na antena da minha televisão continua lá, mas tenho certeza de que me olha nos olhos desta vez. E então ele começa a cantar uma bela canção que, tenho certeza, desbancaria muitas bandas com músicas no top list. E quando balança as asas, dou-me conta... O pássaro que mora na antena da minha televisão está de mudança. E ele parte, num voo suntuoso, destemido.

E enquanto a vida vai voltando à rotina, percebo que interferência do pássaro em mim, ela que rearranjou meus sentimentos. E enquanto a vida segue, eu me detenho neste pensamento: houve o dia em que o pássaro que morava na antena da minha televisão ganhou o mundo, como pretendo fazer daqui a alguns pães frescos.


carladias.com

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6 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Bravo, Carla passarinha!

fernanda disse...

Carla poeta, me lembrou outros dois. O "eles passarão, eu passarinho" do Quintana e "Todo abismo é navegável a barquinhos de papel", de Guimarães Rosa.
Bjos!

Marisa Nascimento disse...

Lindíssimo, Carla!!
E seus textos sempre dão asas à imaginação de seus leitores.
Bjs

Sinueh Treslen disse...

Muito bacana seu Blog, textos muito shows !! Parabéns !!
Também tenho um Blog, passa lá !!
Aguardo sua visita !! Abração !!http://gotasdeelixirsagrado.blogspot.com/

Zoraya disse...

Carla, você poeta poesias com asas leves!

solar da literatura disse...

olá carla dias!

belo texto. como sempre.
(tivemos texto seu publicado no jornal do pontal - apresentação do livro "sol entre noites" do whisner fraga)

abraços.
enio.