sexta-feira, 30 de setembro de 2011

ARGUMENTOS PARA FILMES DE TERROR
>> Zoraya Cesar

Cena um: Concentrada na delicada operação de expor as vísceras de um paciente, a médica demorou a notar a repentina inquietação da equipe. A instrumentadora remexia-se, o anestesista tinha sobressaltos, e ao zumbido dos aparelhos juntava-se o murmurinho das enfermeiras assistentes. Irritada, finalmente levantou os olhos, era impossível continuar uma operação daquele jeito.

O susto foi paralisante. Incontáveis insetos sobrevoavam a equipe e a mesa de operações, mantidos à distância pelos abanos agora frenéticos das assistentes.

Ela também, perdendo o controle, começou a gritar histericamente ao baixar os olhos e ver a barriga aberta do paciente coberta por enormes moscas verdes.

Cena dois: O paciente gritava alucinadamente, contorcendo-se na cama, o sangue saindo pelo nariz, os olhos esgazeados, apavorados, pedindo socorro. Levou dois dias para que um residente, resolvido a pôr fim àquela barulheira que incomodava os outros internos, sedasse-o. E em nome de algum resquício de humanidade que ainda tivesse, resolveu trocar um curativo mal feito do infeliz. Só para descobrir, com o estômago já revirando, que larvas haviam sido depositadas na ferida aberta do rapaz e o estavam comendo ainda vivo.

Cena três: o pai arrebentou a porta da sala de parto, pensando numa tragédia: ouvia os gritos da mulher, dos médicos, pensou o pior, mas nada podia se comparar ao que ele viu. Sua esposa, seu filho recém-nascido, os médicos, todos gritando e se debatendo, cobertos por grandes moscas esverdeadas.

Só mais uma cena, e você escolhe qual delas é ficção e qual é a mais assustadora: há algumas semanas, o centro cirúrgico de um grande hospital público no Rio de Janeiro — a segunda cidade mais importante do país! — foi invadido por uma moscaria de varejeiras, interrompendo os procedimentos e levando o horror e o pasmo a pacientes, acompanhantes, médicos. A sociedade não se manifestou.

Esse é o fato real, mais apavorante que qualquer ficção. Com o agravante de que a ficção é bem passível de se tornar realidade. A mosca varejeira não é só nojenta, ela pode matar. Ela deposita seus ovos em tecidos vivos (como feridas abertas) de qualquer animal de sangue quente, incluindo o homem, ou em substâncias orgânicas em decomposição. Em até 24 horas, as larvas começam a se alimentar dos tecidos vivos do hospedeiro, cavando a carne até os ossos e as cartilagens, provocando uma infecção chamada miíase, que leva à morte se não combatida a tempo. Se você passou batido, já meio enjoado, vou repetir: tecidos vivos.

Alguém, por favor, me explique, bem devagar, para eu entender, como pode acontecer de haver, nas imediações de um hospital, um local propício para moscas varejeiras. Agora pense na seguinte questão e, se puder, me diga o que é pior: a invasão das moscas ou o silêncio da sociedade? O meu e o seu silêncio?

Uma autoridade qualquer veio a público dizer que a culpa era da obra que estava sendo feita dentro do hospital. É muita desfaçatez! Como assim? Se essas moscas depositam seus ovos em matérias decompostas, e ainda não temos notícias de pacientes terem servido de berçário para larvas, será que existe cimento de sangue quente? Madeiras musculosas? Tijolos com feridas abertas? O que existe ali por perto, e provavelmente há muito mais tempo do que gostaríamos de admitir, é algum depósito de carne deteriorada, de substâncias putrefatas, algo impensável em qualquer país decente. Obras?

Mas, calma. Talvez eu esteja errada. Talvez haja mesmo outros depósitos de carne putrefata espalhados por aí, nem tão perto do hospital. Casas legislativas inoperantes, sedes de executivos indiferentes, tribunais arrogantes  parecem lugares perfeitamente adequados para as larvas das Cochliomyia hominivorax.

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7 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Zoraya, às vezes tenho a sensação de que vivo em outro mundo, tão distante disso que você descreve. E não sei se essa sensação é boa ou ruim.

Cacá - José Cláudio disse...

É verdade, esse hospital dá a impressão de localizar-se no meio das sedes do legislativo, executivo e judiciário. E o povo na periferia, só olhando sem nada fazer além de abanar. Parabéns pela ótima crônica. Paz e bem.

fernanda disse...

Sendo ficção, seria um argumento excelente. Sendo realidade é muito triste. Nem ouvi falar desse caso. Esse filme ninguém quer divulgar, né?
Bjos!

Zoraya disse...

Cacá, obrigada, já vi você por aqui, me prestigiando com seus comentários!O pior é que os jornais só deram a notícia um dia, depois o caso foi "abafado". Tsc tsc.

Fernanda, também já te vi por aqui, obrigada!! Agora estou aprendendo a interagir, vocês me desculpem nunca ter dado retorno antes, ainda sou internenovata. Ninguém quer divulgar mesmo. A gente poderia fazer um filme trash com esse assunto, mas ficaria às moscas. Beijos!

Anônimo disse...

Argh!!! que eca! ;-)))
Parabéns pela bem sacada crônica!!!
Renato

Wanderley Leimgruber disse...

'I wanna be sedated
Nothing to do, nowhere to go, oh
I wanna be sedated
Just get me to the airport, put me on a plane
Hurry, hurry, hurry before I go insane...' [ramones]

Só recorrendo ao punk.

Anônimo disse...

"A gente poderia fazer um filme trash com esse assunto, mas ficaria às moscas"... MUITO BOM! Sim, muito bem tecido, desde a ficção até a caradepau da notícia mal-explicada, a busca pelos "tecidos vivos" numa obra de alvenaria e finalmente a propriedade da busca por "tecidos podres" no legislativo e afins. Muito bom!
abrax, ajax
Rocca



Fonte: Crônica do Dia: ARGUMENTOS PARA FILMES DE TERROR >> Zoraya Cesar