segunda-feira, 5 de setembro de 2011

SE EU PULASSE >> Albir José Inácio da Silva

Se eu pular agora, não terei de ouvir o gerente dizendo que não devia mas, como é muito generoso, vai refinanciar em setenta e duas prestações. E que também por generosidade vai devolver da minha conta o saldo sequestrado para compensação de dívidas.

Fico livre, se pular, de uma vez por todas daquele agiota e assassino que passou a me perseguir e ameaçar meus parentes caso eu não pague o que nunca se acaba.

Se eu pular agora, ficam pela metade os remédios faixa preta que vão empurrando a vida e garantem minutos de sono entrecortado por pesadelos com cheques e duplicatas e cartões e vencimentos.

Não terei mais que ouvir aquela mulher reclamando de não ter a sorte das outras peruas, nem a roupa, nem os sapatos, nem o marido bem sucedido e esperto nos negócios.

Se pular, não vou participar de correntes da prosperidade, entregando o meu tudo, nem recitar versículos geneticamente modificados como “O pastor é o meu senhor e nada lhe faltará”.

Se eu pular agora, o simbolismo é perfeito: meu sangue tingindo o logotipo do banco na calçada – um cifrão estilizado em pedra mármore - com a multidão em volta, e os flashes registrando o último e definitivo pagamento.

Mas não vou pular porque aqui é só a sobreloja, e o máximo que eu vou conseguir é ser um aleijado ridículo e endividado. Melhor tomar outro comprimido que minhas mãos já estão tremendo.


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5 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

É por aí mesmo, Albir. :)

Wanderley Leimgruber disse...

Muito bom, fiquei imaginando vc escrevendo uma peça. Achei que tem uma pegada dramática.

Marisa Nascimento disse...

Eu que não pulo agora de jeito nenhum!!!
Como vou ficar sem ler seus textos?...:)

DYEGO disse...

muito boa a cronica ,

albir disse...

Vida dura, né, Edu?

Wanderley, obrigado. Volte sempre!

Nem pense nisso, Marisa. Não dá pra ficar sem sua leitura.

Dyego, que gentileza! Venha sempre que puder.