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SENTADO À BEIRA DO CAIS >> Zoraya Cesar

Sitting on the dock of the bay, wasting time ahhh ahhh (Otis Redding - Steve Cropper)

Você encontra um banco no lugar ideal: à meia-sombra - debaixo de uma árvore que, a cada suspiro da brisa amena, derrama-se em aromas sutis; à meia-luz, iluminado pelo Sol que, generosamente, insiste em permanecer no céu e aquecer o frescor do dia que se vai.

E de frente para o cais.

A leveza do momento é tão imensa que o silêncio não é quebrado, mas preenchido, pelo grasnar dos patos e pela voz infantil que brinca na casa quase ao lado. Seu coração começa a bater no mesmo ritmo suave do marolar nas pedras da praia, e você se sente feliz. Sittin' in the mornin' sun, I'll be sittin' when the evenin' come… / Watching the tide roll away, Ooo, I'm just sittin' on the dock of the bay, Wastin' time…

De seu posto privilegiado, você acompanha – mais com o espírito do que com a consciência – o navegar dos poucos barcos que enfeitam a paisagem.  Cada um seguindo para seu porto, sem pressa, sabendo que seu destino não se resume a deixar ou pegar passageiros. Pois esta é uma missão importante, não se “resume a”. Watching the ships roll in / And then I watch 'em roll away again, yeah.

Tudo ao redor lhe traz paz. Toda a paisagem lhe enche os olhos, o corpo, a alma. Calmamente, você espera o seu barco. Tão parte da paisagem quanto o banco no qual agora está esparramado – a quem olhasse de longe, você pareceria uma estátua há muito tempo ali colocada.  I'm sittin' on the dock of the bay, Sittin' here resting my bones / And this loneliness won't leave me alone…

Tão imerso na perfeição do momento que nem reparara na senhora que, vinda do atracadouro, agora passa por você lentamente. Ela é gorda, forte, e suas roupas devem estar lhe causando muito mais calor do que a tarde apenas morna oferecia, pois está suada e avermelhada.  Seu andar é dificultoso, e ela caminha pesadamente pelo cais.  Aparenta ter 70 anos. Você começa a divagar sobre a vida que teria levado, na parte que lhe coubera nesse latifúndio (João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina). Aos 70 anos, tantas dores e perdas já passaram por uma vida, que talvez nem sejam mais contabilizadas. Mas estavam ali, no andar dela. It's two thousand miles I roamed / Just to make this dock my home.

Aguardando seu barco na tarde que se despede delicadamente, interrompidos seus devaneios, você pensa que àquela idade, ela já perdeu os pais. Talvez um filho. Um companheiro. Já perdeu alguns amigos. Talvez um bicho de estimação muito querido. A capacidade de se adaptar às circunstâncias.  A saúde plena. Não falemos dos ganhos. Falemos das perdas que, depois de uma vida inteira, empapam de cansaços aquele andar. O que ela vê, você se pergunta, ao olhar para frente? Looks like nothing's gonna change / Everything still remains the same…

O silêncio e seus pensamentos são surpreendidos pela voz roufenha e arfante dela, que, voltando-se, pergunta se você sabe onde fica o ponto de ônibus para ***.  Você não tem a mínima idéia, mas fala do barco que está esperando.

- Não - ela rebate -, estou aqui há muito tempo. Não há mais barcos. Não há mais nada – com certeza tão profunda, que você se amedronta. E vai embora, carregando seu corpo e sua vida com dificuldade.

Mas você reage rápido e, correndo atrás dela, tenta mostrar-lhe o tíquete com o horário dos barcos, enquanto ela continua repetindo, zangada até, e triste toda vida, que não há mais barcos, não há mais nada. Só quando entende que, por acaso, você também vai para ***, ela se acalma. E volta para o atracadouro onde, sentada, espera, olhando para o lago. Ela não parece ver os cisnes, nem ouvir a marola, nem sentir a brisa no corpo, nada. Apenas espera o seu barco. 'Cause I've had nothing to live for / And looks like nothin's gonna come my way.

 “Por acaso”? Que acaso? O Divino providenciou que ambos estivessem na hora e no lugar certos: um, para receber ajuda; outro, para dá-la. Mas se quisermos falar de sorte, você, no fundo, sabe que o mais afortunado dessa história foi aquele que aproveitou a oportunidade para ajudar. Pois da próxima vez talvez seja você a precisar de que algum desconhecido sitting on the dock of the bay, wasting time ahhh ahhh saia do seu conforto e insista para você esperar pelo barco. Porque, amigo, sempre chegará o dia em que precisaremos de ajuda, não importa quanto tempo passemos aqui, nem quanto peso carreguemos, se sabemos ou não apreciar um final de tarde. No final, pegaremos todos o mesmo barco, seguiremos todos para o mesmo destino.

E seria bom ter alguém que nos mostrasse o caminho certo.

Now, I'm just gonna sit at the dock of the bay / Watching the tide roll away / Oooo-wee, sittin' on the dock of the bay / Wastin' time…

 

Comentários

aretuza disse…
Puxa, que bonito, eu me senti sentada ali...
Obrigada!!!
Bela "costura" entre texto e canção!
Renato disse…
Bela crônica!

Vou ficar com a música na cabeça o resto do dia ... ;-)))

Bjs,
Theo disse…
Não me surpreendo mais com a qualidade formal de seu texto – pois devo lembrar que o conheço, e bem, desde... você sabe quando –, mas o conteúdo temático (e por que não dizer, dramático!?) e sua verve continuam a me impressionar deliciosamente, alimentando a mesma satisfação de quando eu lia, ainda recém publicadas, as suas matérias de outrora.

Tanto é assim que, se eu tivesse de batizar, hoje, um vinho de boa safra, baseado em suas crônicas atuais (claro que também li a do mundo que fala português!) e escritos passados, eu o chamaria de Zoraya Grand Cru, tal a vivacidade alcançada com o passar das estações.

No mais, pude constatar que, na hora de expressar, por escrito, a singularidade dos sentimentos, nem todo mundo vai precisar de alguém para mostrar o caminho certo. Há raras almas que, como você, em vez de se deixarem conduzir, sabem usar da própria pena para encontrar, por si só, a melhor direção a seguir.
Lindo seu texto. Sensível. Tanto que me deixou reflexivo e fazendo tantas associações. Obrigado.

'And this loneliness won't leave me alone…'

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