Pular para o conteúdo principal

O FIM DOS GORDOS >> Kika Coutinho

Está decretado. A proliferação da cirurgia bariátrica não me deixa mentir. A capa da Veja, falando de um remédio que produz emagrecimento milagroso, só veio ratificar o que estamos vendo: os gordos vão acabar. Como vão acabar os óculos e os aparelhos metalizados.

Aparelhos metalizados quase não existem mais. É um tal de aparelho invisível, transparente, de porcelana ou de vidro, chega a me dar saudades quando lembro dos sorrisos adolescentes do colégio, os lábios que riam fechados, relutando em abrir-se, envergonhados pela chuva de prata que era a nossa boca de menina. E a fase em que gostávamos. Sempre tinha um jeca que queria mais era pôr o tal aparelho. Conheci um que tentou colar papel laminado nos dentes da frente, um desejo louco de sorrir prateado, como os outros. Hoje, acho que não se faz mais papel laminado. Para nada.

Os dentes tortos também andam meio sumidos. E os dentes amarelados? Aproveitem para vê-los agora porque, em breve, todos terão sorrisos brancos e ofuscantes como os atores da Globo. Vai um óculos escuro aí? Aliás, óculos, só de sol mesmo. Quem ainda usa óculos de grau? E aqueles antigos conhecidos como fundo de garrafa, lembra? Deixavam os olhos do usuário miudinhos lá dentro, pequenos grãos dentro das lentes grossas e milagrosas que os faziam enxergar... Hoje, os poucos que ainda usam óculos de grau logo farão a cirurgia, numa barraquinha da esquina. Tenho certeza de que ainda vão te oferecer, numa praia qualquer, um combo com cirurgia de miopia mais tatuagem de henna a preços muito módicos. E nós correremos para fazer, bronzeados e visionários.

Também não vejo mais cabelos ressecados, cachos naturais e aquele velho cabelo nem enrolado nem liso, que nunca ficava bom, lembra? Sumiu. Se tem, é só para os menos favorecidos, mas logo acaba. Os produtos transformaram os cabelos naquilo que queríamos que eles fossem: iguais. Hoje em dia, só há dois tipos de cabelos. Ok, três, talvez: os lisos, os chaeados (com cachos perfeitos) e os lisos com cachos nas pontas. Todos lindos. Ai que saudades do cabelo mais ou menos, aquele que exigia uma piranha urgente porque estava mesmo péssimo...

Mas cabelo não faltará no futuro. Pelas animação dos pesquisadores, carecas serão tão raros quanto o mico-leão dourado. Aliás, entre os famosos já não tem careca, né? E só resta o Willian Bonner com aquela faixa branca. Ah, e o Tarcísio Meira também permitiu que seus fios ficassem brancos. Mais algum grisalho, gente, pra mostrarmos que somos gente nesse mundo? Nada. Todos seguidores do Amaury Jr. ou do Ronnie Von. E vamos para a era de muito cabelo escuro ou aloirado. Isso porque nem falo de mulher. Mulher grisalha deve ter uma ou duas, no Sudeste todo: as fortes remanescentes do mundo real.

Não demorará muito para decretarmos também o fim das rugas, da barriguinha e dos peitos caídos. Ah, Clarice dizia que “destino de peito é cair”, mas errou. Destino de peito, hoje, é inflar e subir. Esqueçam a lei da gravidade e olhem para a bela Susana Vieira, naquelas fotos tipo sereia, saindo do mar. É o futuro e suas invencionices.

Ainda faltam poucos. O Jô, e mais dois ou três, mas os gordos vão acabar. Aguardem, e apertem os cintos. O futuro está aí, três furos antes do que você pensa.

www.embuchada.blogspot.com.br

Comentários

E eu tendo esse trabalho todo de fazer dieta, Kika... :)
Debora Bottcher disse…
Adorei! Esse humor é uma delícia de ler... Beijo e saudade.
Mariana disse…
Acredita que, mesmo meu cabelo estando escovado e minha cirurgia de miopia feitz, no fundo sei que sou a menina de cabelos armados e óculos. Este texto colocou uma minhoca aqui pra eu pensar nesta imagem que faço e tenho de mim mesma :)
Beijo
Marilza disse…
Olha, to um pouquinho mais aliviada...rsrsrs Ainda bem que alguém me entende...
Fernando disse…
Você esqueceu de mencionar que os cientistas estudam formas de retardar o envelhecimento. Todos viverão esbeltos, cabeludos, sem problema de visão, com dentes branquíssimos e siliconados por muitos e muitos anos. (rsrsrs...)

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …