domingo, 4 de setembro de 2011

DENTRO >> Eduardo Loureiro Jr.

Para Júnior, Junoca, Bindu, Juninho, Eduardo Jr.,
Eduardo,
Duju e outros tantos outros...

Há coisas difíceis de acreditar, tipo "o universo inteiro está dentro de cada pessoa". O leitor já leu ou ouviu algo parecido? Com certeza. Mesmo sendo um ateu de carteirinha, não há como não ter ouvido "o Reino de Deus está dentro de vós" em alguma missa ou culto da infância. São afirmações absurdas, convenhamos, tanto para ateus quanto, especialmente, para os crentes.

Para os ateus é ilógico, um disparate espacial e matemático, afinal, se o universo inteiro está dentro de cada pessoa, nós já estamos beirando os sete bilhões de universos neste planeta. Para o ateu, frases como essas indicam um estado de demência profunda, de ausência de realidade. Como os ateus não têm como colocar em hospícios os milhões e milhões de pessoas que acreditam, ou dizem que acreditam nisso, então fica por isso mesmo, e ponto.

Para os crentes, entre os quais me incluo, a coisa é um tantinho mais complicada...

O tempo em que eu ouvia rock pesado no volume máximo já passou (meus familiares e vizinhos agradecem), mas de vez em quando me volta à memória um verso de uma canção do Whitesnake: "Who am I to believe in love? Love ain't no stranger" ("Quem sou eu para acreditar no amor? O amor não é nenhum estranho."). Pois é, caro leitor, a gente só acredita no que é estranho (a nós), naquilo que não conhecemos. É o que está por trás daquele outro dito famoso, "Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay" ("Eu não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem"). A certeza torna desnecessária a crença. O propósito da crença é chegar até a certeza. A crença é um veículo, um transporte. A certeza é o lugar, o destino.

Então eu (e talvez o leitor, caso esteja na mesma condução) estou numa posição delicada, pois se o universo inteiro está dentro de minha pessoa, o transporte em que me encontro também está dentro de mim. E se o universo está dentro de mim, o destino também está aqui dentro.

"Agora torou dentro!", diriam meus conterrâneos, vendo que a situação ficou "feia". Porque uma coisa é acreditar na beleza da manchete: "O Reino de Deus está dentro de vós". Outra coisa é estudar a matéria inteira, ganhar certeza e viver de acordo. O leitor quer dar uma olhadinha nas letras miúdas do contrato? Então ajeite bem os óculos:

"Whenever anything unpleasant happens outside or inside, it can only be the effect of a cause. Therefore you should retire as soon as possible in meditation and ask yourself what in you could have, directly or indirectly, brought this about." ("O que quer de desagradável que aconteça, fora ou dentro, só pode ser efeito de uma causa. Logo você deveria se recolher em meditação, tão logo quanto possível, e perguntar a si mesmo o que em você poderia, direta ou indiretamente, ter trazido isso à tona.")

"Caiu? Bateu? Machucou? Tomou uma cacetada?" Não adianta passar Gelol que não passa. Vai cair de novo, bater de novo, machucar de novo e tomar outras cacetadas até descobrir onde é que, dentro de si, foi gerado o tombo, a batida, a fraqueza e o agressor.

O leitor há de concordar comigo que isso é dose pra leão, que dá muito trabalho e que é melhor malhar o Judas fora que bancar o Cristo dentro. 

É nessas horas que dá vontade de ser ateu, caro leitor. Pois se é pra entrar no transporte da crença para ficar parado dentro dele (que está dentro de você), convenhamos que é mais negócio sair do veículo e se embriagar de outra ilusão no bar da esquina.

Mas realidade é realidade. E eu já ia dizer que ela "está AÍ", mas ela está é AQUI, me olhando de dentro do meu centro feito um poema de Leminski. E eu já retribuí o olhar. Agora é tarde. Inês é morta. E não morreu sozinha. Seis bilhões, novecentos e cinquenta e nove milhões, oitocentos e noventa mil e oitenta universos estão começando a desmoronar. É um processo lento (vocês sabem do vagar das velozes estrelas), mas irreversível. O destino é o único universo que trago dentro de mim, universo diverso pela presença de "desabrigados" de bilhões de universos que eu pensava que existissem fora de mim.

Fique à vontade, meu povo. A casa é nossa, nós somos a casa, a casa tem rodas e é automovida. É nóis na fita! É fazer dentro PARA acontecer fora. Como cantam Toninho Horta e Fernando Brant, "vamos lá, viajar. Vamos aprender, vamos lá".


As "letras miúdas do contrato" são da palestra 11 do Pathwork.


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5 comentários:

Alba Mircia disse...

Eita, querido! Adorável forma de juntar tantas "coisas" de outros universos no nosso. Epa, e ainda temos que ter cuidado com as "coisas" na construção constante do nosso destino, né? :)

fernanda disse...

Eduardo, Eduardo. O Deus que há em mim cumprimenta o Deus que há em você. Namastê porque se o reino de Deus está aqui dentro, Deus também está no reino, né? Eita que esse assunto dá pano pra manga. Dentro é tão perto e tão longe...
Beijos de todas daqui.
Fernanda, Ferdi, Fê, Nanda, Loló, Nêga...

albir disse...

Esse Eduardo está mesmo por dentro das coisas. E acaba nos incluindo.:)

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, gente.

Marisa Nascimento disse...

Como é bom ver todo bem que você nos faz por dentro!!