sábado, 24 de setembro de 2011

POEMAS NEGROS >> Leonardo Marona

“sem verbo, sem adjetivo”

para Miles Davis

ainda não de todo corpo a verdade,
sem verbo ainda a pele do processo,
acima de tudo, um deslize adjetivo,
dentes e areia nos olhos da penumbra,
miles de minha infância, aleluia, sim!
escultura de metal com molas, prego
no caminho em música, cavalgadas
de paz como feitiço, chapéu da noite
dentro dos ossos, escola da exigência,
frequência de rua, tempo de gueto,
pulso da abstração, catarata on/off,
agulhas de mel no topo do sentido,
um dia, talvez, elegância da margem,
dança com dois punhos de algodão,
órgãos em drama de semi-esperança,
assim já não, nunca mais, agora outro
deserto memória da agonia em pêlos,
sem um verbo, desta vez sem adjetivo,
prazer de íris, maná, dilatação do susto,
culhão de maremoto, show das raças,
verbo transe da massa, óculos de raio,
colisão de vara verde na escola do tédio.

“rebordosa”

é preciso saber esperar,
meia hora e nada mais,
um banho e quem sabe
uma saudável inclinação.

sincero consigo mesmo,
este deve ser o mantra,
penar diante de si mesmo,
o nariz assado, a mente
inquieta, abstrata, torpe.

as leituras russas jamais
ajudam tipos como este.

hás de meter calo a grito,
doente que não se diria,
faminto de muita sorte.

afagas teu crime diário,
desces aqui um pouco
abaixo da linha sisuda.

bailemos, pois, orfanato!
sejamos as presas aflitas.
lá onde não há disfarce
só pode ter restado vida.

“os preocupados”

eu creio com firmeza que a vida
é promovida pelos preocupados.
os preocupados são os analistas
da vida, ou seja, a vida só existe
pela preocupação de que se forma.

mas ocorre que jamais um vive
preocupado em promover a vida.
e os que bradam “eu vivo a vida!”
são promovidos à ação, contudo,
eles não podem ser os mandantes,
eles estão renegados ao progresso.

no meio-tempo, os preocupados
sem jamais viverem eles exercem
a dádiva do câncer, o riso divino.

a força do amor é do abandono,
os preocupados amam e deixam
para os sorridentes escravizados
a alegria doce de não ver e agir.

"have some respect for an old west indian negro"

o problema é todo nosso: os saques sem teoria.

engolimos a idéia de que buscássemos modos
de aliviar a recente decepção revolucionária.

éramos ainda bebês, e nossos pais sentiam-se
como covardes, derrotados por uma ideia tola.
eles não estavam ali dizendo, firmes e fortes:
“será duro ainda, não acabou nada, estou aqui”.

não, nada disso aconteceu, apenas apreendemos
os frutos do amor e não tocamos mais a semente.

nossos pais, logo ao lado, falavam de outra coisa
quando fomos tragados para uma idéia sem fim,
quando abrimos as partituras infestadas e demos
uma boa lição de civilidade, todos egoistamente
atrás de conforto, a cargo de pequenas caridades.

nascemos da caridade dos tempos, não engolimos
pedras, muito pior: acostumamos com a aspereza
no fundo da garganta, e amamos demais, no fim,
estamos perdidos porque temos um amor amoral,
o único amor que, agora sabemos, é amor demais.

as mortes não serão grande coisa por um tempo,
pais e filhos sentarão ainda à mesa sob risos frios.

uma avalanche não se faz de gelo duro, mas com
uma longa exposição ao sol, letárgica exposição
ao que sabemos chamar vida real mas jamais será
outro mundo como aquele, que resolvemos vestir
com determinação e poucas lágrimas, e a frieza
explícita dos encontros de putaria entre líderes
nas salas barbitúricas onde, sem mais demônios,
fizemos nossas regras e pagaremos com sangue.

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