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TRAGÉDIAS ANUNCIADAS >> Clara Braga

Ano passado assistimos atônitos às seis horas de incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Um museu que tinha 200 anos e um acervo histórico importantíssimo. Vi várias pessoas lamentando o ocorrido e outras tantas que foram tomar conhecimento do museu e de sua importância para a identidade brasileira só depois que grande parte do acervo já havia sido perdido.

Ontem voltamos a assistir um novo incêndio que entristeceu todo mundo. Catedral de Notre Dame ficou em chamas por duas horas e perdeu parte dos seus 800 anos de história. Mais uma vez as pessoas lamentaram, aqueles que já tiveram a oportunidade de conhecer essa construção maravilhosa encheram as redes sociais de fotos e aqueles que nunca foram se mostraram igualmente comovidos já que, diferente do Museu Nacional do Rio, é difícil alguém nunca ter ouvido falar dessa Catedral, nem que tenha sido só quando criança assistindo ao filme da Disney.

Eu também lamentei, fiquei triste e pensei que esse ano de 2019 podia acabar hoje e já teria sido suficiente. Mas depois de um tempo fui percebendo que não me entristece só o fato da Catedral ter ficado em chamas, me entristece também ver que vinte quatro horas depois as doações para a reconstrução de Notre Dame já chegaram a casa dos bilhões enquanto a situação do Museu Nacional se arrastou até conseguir alguns milhões e poder começar sua reconstrução sem que o governo parecesse ao menos lembrar do assunto.

Fico triste também quando penso na minha cidade, Brasília. Considerada um museu a céu aberto por causa de suas construções arquitetônicas, chega esse ano aos seus poucos 59 anos. Uma cidade extremamente jovem que, quando se fala em cultura, parece gritar por socorro. Um museu fechado há mais de 10 anos parece cada dia mais virar uma lenda na cidade. O Teatro Nacional parece abandonado, está fechado há 5 anos e as reformas parecem ser eternas, já que o que parecia ter ficado pronto já está caindo aos pedaços de novo. Nada ainda pegou fogo, então ninguém está lamentando muito nem a situação é colocada nos noticiários. Mas eu não consigo parar de me questionar: até quando nossa tristeza, lamentação e empatia vai depender do nível da tragédia e, principalmente, de sua nacionalidade.

Comentários

branco disse…
vivemos em um mundo em que, infelizmente, escolhemos nossos pobres, nossos mártires ou nossos cadáveres por uma conveniência obscura. sua crônica nos deixa uma pergunta. até quando vamos carregar uma mochila que não é a nossa?
Carla Dias disse…
E pensarmos que um olhar mais apurado para nós mesmos pode mudar tanto, não? Imagine como seria se déssemos devido valor à construção da nossa própria história.