Pular para o conteúdo principal

PARA TEMPOS DIFÍCEIS >>Analu Faria

São tempos difíceis: vacinas não funcionam (ao contrário - nos deixam doentes); a terra é plana; 64 não foi golpe; nazismo de esquerda, o holocausto é uma ficção... vou parar por aqui, o leitor já entendeu. Em épocas como a nossa, fica difícil refutar a crença de que a humanidade deu muito errado. Sabe a música do Louis Armstrong "What a wonderful world!"? Digo pra mim mesma que "wonderful" só se for na época dele. 

Com esse pensamento, toco a vida no sábado chuvoso. Chego à escola de idiomas e minha colega de sala, uma menina de uns 13, 14 anos, que também chega atrasada como eu, me cumprimenta em francês. Depois me pergunta como estou, não sem antes hesitar. Faz esforço para "pensar em francês" e praticar fora da aula. Tem cara de estudiosa, usa uns óculos de armação grande e diz que quer cursar Relações Internacionais no futuro. Carrega um livrão e pergunto do que se trata. "É 'Os Miseráveis'", de Vitor Hugo." Ela ri quando pergunto se já começou a ler um livro tão grande daqueles. "Sim, a gente tem de começar de algum lugar né?" 13 anos. 14, no máximo. Acho bonito. Um trechinho de "What a Wonderful World!" passa pela minha cabeça, sem querer, timidamente. Logo a canção vai embora.

Desço para o intervalo e encontro, na lanchonete, um grupinho ao redor de uma moça de uns 20 e poucos anos. A moça explica com desenvoltura alguma coisa sobre cerveja, lúpulo, malte. Tento ouvir, mas o grupo se fecha ao redor dela, interessadíssimo. 20 e poucos anos. Parece saber o que diz, talvez já seja uma expert. Gesticula e responde a perguntas. 

Os tempos são difíceis, e isso inclui especialmente - como todas as épocas difíceis - as meninas e mulheres. Mas há uma menina que lê Vitor Hugo e há  mulher jovem que sabe sobre fabricação de cervejas, ambas estudando num sábado chuvoso. Louis Armstrong aparece de novo no meu pensamento, com aquele refrão tão famoso, agora cantando mais alto e claro : "And I think to myself/What a wonderful world!" Lá fora, a chuva aperta.


Comentários

Luiz Silva disse…
Em tempos difíceis eu digo num português bem simples: Que crônica maravilhosa! Que mais eu poderia dizer?
Que bom !! Ainda temos pessoas que acreditam e seguem avante.
Zoraya Cesar disse…
Que linda crônica de esperança e leveza, Analu! E com luxo de trilha sonora. Obrigada!
À menina que lê Os Miseráveis e à jovem que rompe barreiras temáticas, junte a sua crônica como mais uma esperança pra esses tempos cinzentos. Quando parece não haver nada a comemorar, ainda se pode comemorar a solidariedade.
Carla Dias disse…
Um belo passeio com palavras pela esperança. Olhe, ela anda meio avariada, mas insiste em nos provocar.