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PAI, PERDOA-LHES! - Primeira parte >> Albir José Inácio da Silva


Da janela Dona Rute viu Amâncio se estatelar de costas no chão bem na frente da birosca do Zé Maria. O filho tinha ido só comprar pão, mas reagiu às humilhações e acabou agredido mais uma vez.

- Da próxima vez tu leva um tiro, ô saci-pererê! – gritou o comerciante.

- Tu só se garante no três oitão, ô cangaceiro. Mas o Brasil tá mudando. Não é só bandido que vai ter arma, não. – reagiu Amâncio, limpando o sangue do nariz com as costas da mão. – A tua vez vai chegar!

Dona Rute correu a socorrer o filho e levá-lo pra casa. Não suportava mais a humilhação e o sofrimento do filho que acompanhou desde que ele era uma criança. Mas sentia-se impotente. Só Deus!

Zé Maria chegou ali fugido de algum crime.  Apesar de proibido o assunto, dizia-se que na mocidade tocou terror lá pras bandas do Sergipe. Tentava enterrar o passado, levando vida pacata a frente do negócio adquirido com o dinheiro que trouxe numa mala há alguns anos. Evitava pendengas com traficantes e policiais corruptos, a quem pagava pra não ter dor de cabeça.

Mas não aliviava os mais pobres, doentes, gagos, aleijados e doentes mentais. Sobre esses despejava todo o seu desprezo e sadismo. Amâncio era perfeito porque explodia à primeira provocação.  E isso é tudo o que quer um sádico.

Saci-pererê era só a última crueldade do Zé Maria para mortificar o pobre Amâncio que de humilhações já sofrera tudo. Suportou muitos apelidos por toda a vida por causa de sua pobreza, sua cor e seu defeito físico. Manca de uma perna, não se sabe bem se por genética ou descuido de alguma vacina, que desse assunto Dona Rute não fala.

Mas de todos os nomes de que o chamam, o mais doloroso é Amanco. Talvez porque saiu da boca de um professor em pleno pátio da escola, teve a força de um registro em cartório e o acompanhou pelo resto da vida, doendo como uma ferida aberta.

Até a adolescência, Amâncio aceitava o bullying e as humilhações como se fosse o seu destino, achando que a uns cabia pisar e a outros serem pisados. Até porque havia outras vítimas na escola e na vizinhança, igualmente conformadas, apáticas e seguindo o seu caminho de rebanho.
Foi depois da morte do pai, assassinado fria e gratuitamente, que a revolta se instalou em seu coração e ele começou a pensar em vingança. E armas. Como começou a reagir, a violência aumentou. Várias vezes foi parar no pronto-socorro com escoriações e contusões. A vida virou um inferno.

Proibida que lhe era a arma legal, Amâncio aceitou conselho de amigos e se matriculou numa academia de lutas. Treinava pesado, esperando que os músculos trouxessem a segurança que a vida lhe negava. Recebeu elogios dos mestres e respeito dos colegas. Apesar da perna, destacava-se em técnica e agilidade. Achou que ali se encontrara, que a academia era o seu templo de paz.

Mas no primeiro desentendimento, banal, que acontece em todo ajuntamento humano, alguém gritou “Amanco” e ele precisou ser contido pelos professores. Durou pouco o sonho das artes marciais.

Quando ouviu pela primeira vez a promessa de liberação de armas, não teve dúvidas, decidiu ali o seu voto. E fez campanha, distribuiu santinhos, ensaiou mesmo alguns discursos em nome do direito à legítima defesa para os que viviam ameaçados, “já que os bandidos tinham armas e o cidadão de bem, não!” E veio a vitória e a posse. A vida ia mudar, teve certeza.

(Continua em 15 dias)

Comentários

Zoraya Cesar disse…
teve a força de um registro em cartório e o acompanhou pelo resto da vida, doendo como uma ferida aberta. Excelente!

Curiosa demais para ler o desfecho da história do pobre Amâncio, que não conseguiu se 'desrecalcar' e ser mais forte. Já to vendo que ele escolheu o caminho errado...