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DITADOR >> Fred Fogaça


Sentado na sala de jantar, pés pra cima, dia pelo fim, meio a uma típica crônica triste pro domingo; o vento pra lá e pra cá não trazia som, a vizinhança dormia, nada mais que típica. O cursor, ora piscando e inerte, ora cuspindo letras, soava devagar conforme as teclas. Um par de orelhas pontudas, - Lenin, a saber - barulhou devagar pelo corredor e vendo uma das minhas mãos pendentes no colo, acomodou a cabeça em baixo, apoiando-a na cadeira, e me olhou. 

Daí um pensamento. 

Afaguei-o, mexendo em suas orelhas e, sem reservas, porque não há ridículo quando para agradar um neném desses, fazia vozinha, fabulando suas eventuais respostas enternecidas e infantis ao que eu achava - e na visão dele - que seriam bondades. Seu linguajar, na minha invenção inconsciente, sempre foi problemática. Troca sem motivos as consoantes e igualmente adiciona vogais no fins das palavras - babai - fora uma incapacidade terminal de manter uma sequencia lógica de frases e um terrível pedantismo. Era como se lhe emposse, se analisado os fatos históricos relativos dessa maneira de se comunicar, um passado terrível. 

Isso que o imaginário em torno dele, incluí a ambiciosa posição de ditador - ditadoro - da minha casa, cargo que ele ocupa sem qualquer resistência política pelo único habitante de sua jurisdição. As relações externas são exemplares, Ministério que ele faz questão de ocupar também. Com seu temperamento peculiar toma, as vezes, decisões particularmente destrutivas, mas ouve o povo quando se manifesta contra - e geralmente aprende. 

Nunca tinha pensado a respeito de certa incongruência, nessa relação de governo e imaturidade. Ora, se imaginava sequer que uma capacidade cognitiva de trabalhar com elementos simbólicos tão sofisticados como uma ditadura suave, como é que ele não se articularia com todo requinte e recato de um clássico nobre, como um homem de salão? 

"Queira afagar-me por entre as orelhas, por bondade?" 

"Deveras divertido, senhor" 

"Importar-lhe-ia jornadear-me até a beira-mar, meu caro, pois almejo em demasia correr pela areia e refrescar-me" 

"Me cabe lamber-lo, amado. Anseio que compreenda-me." 

"Prezado, tenhas a bondade de desprender-me da guia com que me levas para que possa esfregar-me nessa carniça" 

"Não ouses perturbar-me, devo dizer-lhe, pois é demasiado cedo." 

Obervação a notar, passo a te-lo com mais considerações agora, capacidade digna, faculdades em ordem e moderação nos despachos, como um bom ditador que é, mas não consegui, confesso, não continuar atribuindo-lê seus problemas históricos com a linguagem.

Comentários

Zoraya Cesar disse…
ownnn, que coisa mais fofa e gostosa, Fred! o monólogo imaginário em português antigo me fez sorrir até o fim. Um sorriso pode ser tão salutar qto uma gargalhada, que nao deixa de ser uma coisa meio violenta. Sorri, feliz. Valeu!
EZEQUIEL FOGAÇA disse…
Nada que um latido não nos impele fazer, nada que um olhar pedinte não conquiste imediatamente. Realmente imediatistas como ditadores, não fosse a singularidade do amor certamente seriam tiranos.