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AMARRAÇÃO DE AMOR - 2a parte >> Zoraya Cesar

Leia aqui a íntegra da 1a parte de amarração de amor - Isaldinha temia que, por falta de sexo, seu casamento naufragasse e desse com os costados no píer da vizinha gostosona Marinalva. No capítulo anterior vimos que os planos para atrair seu marido, Oscar, para os enlaces do amor deram mais elado que os do Cebolinha para delotar a Monica.

Enquanto Oscar convalescia dos efeitos deletérios da superdosagem do viagra, Isaldinha estudava meios de despertar o interesse do marido, sedenta que estava por um sexo animal, romântico, gótico, qualquercoisapelAmordeDeus. Por que ele, sessentão, mais feio que mentir pra mãe, não poderia ter desejo por ela? Uma mulher de carne, muita carne, e osso? E daí que já não fosse jovem nem se parecesse com a Scarlet Johanson? Na hora do vamuvê, a bacurinha não negaria fogo!

Plano 4 – quando ‘manter a chama do amor acesa’ é mais difícil do que parece

Strip tease, viagra, álcool, nada dera certo. Isaldinha partiu para o sobrenatural. Sua manicure garantira que a prima da cunhada da irmã da sogra seguia dicas de um blog batuta, e o namorado vivia atrás dela, cheio de tesão.

FEITISEXO  - como usar a magia na sua vida sexual

Isaldinha maravilhou-se com os sortilégios infalíveis para despertar a libido do companheiro, ficar mais sexy, curar dor de cotovelo. Como aproveitar as fases da Lua para fazer chás, comidinhas e banhos afrodisíacos com rosas e morangos, perfumes caseiros, massagem com velas. Isaldinha gostou especialmente dessa. Comprou velas especiais. Aprendeu a massagem num tutorial. Tirou a famosa lingerie preta do armário.

Numa 5ª-feira de Lua Crescente preparou o ambiente – no sexo, preparação e preliminares são tudo. Apagou as luzes da sala e entrou, a vela acesa na mão, entoando mantras e oferecendo ao espantado Oscar uma sensual massagem com cera quente. O insensível não se comoveu. Começou a rir daquela cena, a mulher barriguda, coxas grossas e estriadas, os seios, outrora atrevidos, agora caídos, cantando coisas estranhas e tentando pingar cera quente nele. Massagem? Tá doida?

Ela se manteve firme. Essa reação era esperada, forças ocultas estavam tentando interferir em seu ritual.

Um pouco de cera caiu no braço cabeludo de Oscar e grudou, impedindo, por consequência, que o produto se espalhasse. Em vez de uma massagem relaxante e sensual, o que ocorreu foi uma dolorosa depilação com cera quente. Oscar gritou (homens são fracos. Mulheres passam por isso todo mês), pulou do sofá, já sem achar graça nenhuma, e trancou-se no quarto.

- Tá ficando louca, mulher? Apaga essas joças, vai tacar fogo na casa.

Isaldinha ficou ali, desconsolada, num estado mais lamentável que o do Cavaleiro da Triste Figura, as velas aromáticas derretendo, inúteis, em suas mãos. Que azar, tinha que cair logo nos pelos? Também, Oscar mais parece um macaco, de tão peludo. O que mais doía não era a chacota do marido (não foi por mal, pensou ela), mas não ver seu esforço valorizado. Foi um duro golpe em sua auto-estima.

Mas ela não desistiu. Abandonou o 'feitisexo' para os amadores e partiu pra grosseria. Magia negra de amarração. Ora se não!

Intervalo

A vida premia os audazes. Bem sucedido é aquele que não desiste. E chega de postulados de para-choque de caminhão. Vamos aos fatos. Procurando feitiço de amarração (pois ela podia até se conformar em ficar sem sexo; sem seu marido Oscar, jamais), Isaldinha deparou-se com outro tipo de amarração. E com um mundo que não era de feitiçarias, mas de BDSM. Do quê? Bondage, disciplina, dominação, submissão e... olhe, pensando bem, faça que nem Isaldinha, procure. Até porque ela só se interessou verdadeiramente pelas primeiras vertentes. E, de tão encantada com esse novo mundo, perdeu a ansiedade por despertar a libido do marido com sexo picante (trocadilhos infames são permitidos). 

Dessa vez ela não teve pressa em concretizar seu plano. Estudou, treinou, percebeu que levava jeito com as cordas, amou as novas possibilidades e encontrou uma faceta de sua personalidade com a qual jamais, nunca, jamais sonhara ter. Olhava-se no espelho e achava-se linda! Diferente. Sedutora. Segura de si. Empoderamento feminino? Rá! Isaldinha te mostra o que é.

Plano 5 – amarração de amor. Quando o feitiço não se volta contra o feiticeiro

Um dia, como quem não quer nada, colocou o filme para Oscar ver, com os olhos esbugalhados, homens e mulheres nus, uns amarrando outros, em complicados nós e cordas, formando desenhos estranhamente excitantes em seus corpos, alguns pendurados, totalmente imobilizados pelos parceiros. Ele ouviu a voz da mulher bem juntinho de seu pescoço, você gosta disso, querido? Sim, sim, babou ele, sem tirar os olhos do vídeo.

Com uma rapidez inacreditável, Isaldinha amarrou o marido, deu nós e voltas nas cordas, deixou-o paralisado, à sua mercê. E despiu-se do roupão que escondia seu corpo... e o resto.

Oscar, que esperava apenas mais uma doidice da mulher enquanto via o filme, perdeu a paciência. Como ela conseguira ser tão veloz, e onde ele estava com a cabeça que permitira aquele descalabro? Me solta!, berrou. Até que reparou, embasbacado, na figura à sua frente.

Isaldinha estava toda maquiada, parecia a Beth Ditto, em corpo e, ouso dizer, em alma. Usava saltos altos, máscara, calcinha fio dental,  sutiã de couro. E uma expressão severa no rosto. Na mão, não um chicote, mas uma colher de pau (toda a indumentária fora uma fortuna, o chicote ficou fora de seu orçamento). Oscar ainda tentou retomar o controle da situação, ensaiou fazer um chiste com a inadequação das roupas para um corpo com sobrepeso e na meia idade. Mas ela se aproximou e apertou levemente uma das cordas. Uiiiii, isso dói, isso é gostoso, isso d... confundiu-se Oscar.
Sutiã de couro. Isaldinnha nunca
pensara que teria coragem
de usar um.

Oscar não estava mais nem pensando direito,  lamentava não poder contar aos amigos que participara de uma sessão de (de que mesmo? Sei lá) com a própria esposa, ainda por cima tendo sido enganado e dominado. Isaldinha fez tudo conforme aprendera, direitinho (quem diria!), controlando o excitamento do indefeso marido como quem controla um cavalo pelas rédeas. Até que, colocando o pé no peito dele, olhou bem em seus olhos e disse: tá vendo isso Oscar? Se eu te pegar olhando pra marinalvas e outras vagabetes, se você rir de mim ou me chamar de gorda, se não comparecer aos seus deveres conjugais EU VOU ESTRANGULAR ESSE PINTO. Oscar, os olhos quase saindo das órbitas, de tão arregalados, apenas disse sim, senhora, sentindo um estranho, inédito e inenarrável prazer.

GRAN FINALE

Desamarrou o marido gemente, apontou-lhe a colher de pau e sentenciou: venha para o quarto AGORA, que hoje você vai me fazer barba, cabelo e bigode. Oscar, embevecido, seguiu-a de gatinhas, felicíssimo. 

Feitiço de amarração de amor era para os fracos. Isaldinha descobrira-se uma dominatrix nata, de primeira linha. E Oscar, vejam só, um submisso perfeito. Isaldinha?...

Isaldinha o cacete. Meu nome é Mme. Isalda, Poderosa, a Dama do Shibari, Senhora da Colher de Pau.

Vamos lá:

Beth Ditto é vocalista da banda indie rock norte-americana Gossip,  conhecida pela voz, por suas posturas independentes, por seu visual audacioso e sensual, incomum para mulheres acima do peso.

Shibari é um verbo japonês que significa, literalmente, amarrar ou ligar. No século XX essa expressão tomou um sentido diferente, sendo usada em contextos eróticos na prática de bondage. E mais não digo nem mostro, que Isaldinha não me deu permissão e esse é um blog família.

Cavaleiro da Triste Figura - também conhecido como Dom Quixote de La Mancha, que ganhou esse apelido de seu fiel escudeiro Sancho Pança.

Fotos
sutiã de couro 92cd68011f13b31cf568dd0f61c79b9.jpg Pinterest

Beth Ditto 523e6c7569a53c4a5b75c020fa370283 Pinterest 

Comentários

Unknown disse…
Hahahaha show de bola. Quando li o "qualquercoisapelAmordeDeus" não imaginei a que ponto Isaldinha conseguiria chegar. Não foi nada qualquer coisa... Uhuu! Alta preparação! Mulher de garra essa Isaldinha. Fiquei fã. :)
Marcio disse…
A segunda parte do texto deixou a certeza de que Isaldinha deve ser mesmo um breve contra a luxúria. Oscar, já se sabia, não fica atrás.
Mas, contrariando o hábito da autora, tivemos um final feliz, com um pé cansado perfeitamente ajustado a um chinelo velho.
Que sejam felizes!
branco disse…
a persistência feminina ainda é um mistério e pobre do homem que for alvo desta coisa chamada desejo (feminino). o importante é que existe a descoberta de um e a descoberta de outro e finalmente foram felizes até quando for necessário. resumindo, ser feliz e uma crônica como a sua são necessidades e confesso, as minhas foram saciadas !
Nádia disse…
Amei! Já estava com saudades de ler vc! Amei tudo, rindo muito. Bjka, Lady!
Talvez fosse prudente, Zoraya, alertar sobre a importância da leitura e preparação para as técnicas da Isaldinha - a exemplo do que ela mesma buscou. Eventual imperícia pode resultar em aumento do número de atendimentos e internações na emergência. Beijo.
Anônimo disse…
Fantástico o gran finale! Parabéns amiga! Você é demais! ler suas crônicas alegra meu dia! Saudades! Um grande abraço!
Elida Rolim
Zoraya Cesar disse…
Erica Unknown - vc me surpreendeu! kkkk

Marcio - pois é, um alívio pra vc que me acompanha desde o início, né? Mas nao vai ficar mto entusiasmado. Logo logo volto às minhas raízes

Branco - q perfeito! Ate nos seus comentários vc é poetico e gentil.

Nádia Bella - puxa, fiquei felizaça. Tudo o q eu queria era isso: fazer rir.

Albir - vc tem razão. Aliás, vc acaba de me dar uma ideia. Vai q uma prima da cunhada da melhor amiga da isaldinha ouve essa história, quer fazer igual, mas nao estuda e...

Elida! - que alegria enorme a minha em te ver aqui e ler esse comentário tão importante. Alegrar o dia de alguém deveria ser nossa missão diária.

A todos, muito obrigada!
Carla Dias disse…
Gente, que consigo pensar que faltou dinheiro pro chicote, que deu lugar à colher de pau.
Zoraya, divertidamente sedutor.
Zoraya Cesar disse…
hahahaha, obrigada, Carla!