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QUANDO SER >> Carla Dias


Vem assim, em uma languidez incomensurável. Carregar corpo é quase fardo. Carregar espírito é um recostar constante em dúvidas, inconveniências, engasgos. Vai se espalhando, na agilidade das interrupções, elas que são ardilosas e primam pela velocidade-corte, aquela que desanca esperanças, desacredita futuros.

Tudo muito profundo, como ela tem evitado que seja há uma vida, sem sucesso. Fosse personagem de ficção, ao menos seria interessante para alguém. Porque alguém é sempre o alguém de alguém, ainda que esses alguéns nunca se encontrem. E esse desencontro, que cai na conta do destino, da falta de boa sorte, do não pertencer a uma história que mereça ser contada, desfalece os planos dela. Usurpa a energia das suas vontades, enquanto ela serve o café a conhecidos de quem não sabe os nomes, as histórias, mas que, todos os dias, enfileiram-se diante dela. Não olham para ela, apenas para suas mãos oferecedoras do líquido quente,  o arranque para a rotina deles. 

Uma fraqueza intrínseca se apodera dos sentimentos dela, reverberando ocultações que desaguam em escambos existenciais, abrumando o que antes era tido como fato, mas ela descobriu ser um roteiro ruim de um filme que morre na pré-produção.

Mas é que hoje acordou assim: voluptuosamente triste. Com feição de embelezar o que é dor de profundidade-precipício. De o silêncio sepulcral ecoar feito benfeitor de momento, enquanto cimenta mágoas que continuarão a comandar a falta de tato, de tempo, de pequenas e necessárias insanidades...

Como a de desejar o que(m) era indesejável, até há cinco minutos. Compreender, em um lapso, um ínterim devasso e flanador, que, sim, o que a toca, desmantela, cala, e, indecentemente a condena ao abatimento, é o mesmo que lhe dá cor às faces e lhe arrepia o cobiça pela fuga. Faz pulsar seus entretenimentos internos: deslumbrar-se, descobrir-se, apaixonar-se, odiar-se,  acolher-se, enveredar-se, perdoar-se.

Acorda de si com a estranha tentando tirar a xícara da sua mão, declarando, irritadiça -  devido à urgência que sente por uma dose de café, aquela que indicará em qual ponto ela se encontra no seu script particular -, que o gerente será comunicado que a sua funcionária anda anuviada, de um jeito como funcionários servidores de café a estranhos-entranhados-em-seu-cotidiano não estão autorizados a ser.

Está certa de que aqueles que olham para ela – apática, sem graça, quase sem energia –, sabem nada sobre as suas divagações, verdadeiras odisseias íntimas. Sabem nada sobre o tudo que ela tece, cena a cena, para vivê-lo no dia em que for para o tal ser vivido. Como uma roupa nova que ela prometeu não tirar do guarda-roupa, até que chegasse o dia certo de vesti-la. Até se apresentar aquele momento especial, de catarse dos deleites, de libertação.       

Fia-se na certeza de que há de chegar o dia em que vestirá aquela roupa e sairá pelo mundo. Verbalizará descontentamentos, mas, em contrapartida, oferecerá soluções para descartá-los, um a um. Citará desejos e se banhará em fascínios, enquanto declara amor, sem medo de que o seu sentimento seja estraçalhado pelo desafeto, pelo desinteresse. Desfrutará de efêmeros ódios enfeitadores de temperamentos e sorrirá por acontecimentos miúdos, daqueles que passam despercebidos, quando estamos anestesiados. Daqueles que dizem muito, enquanto estamos de caso com o alheamento.    

Enquanto ela sonha, ensimesmando-se, recolhendo-se em seus delírios, durante a distribuição xícaras de café a conhecidos-estranhos do seu diariamente, nem percebe que roupa nova também pode puir com o tempo. Que o desuso é um desserviço. Que o dia certo pode nunca chegar. 

Assim, melhor ser no dia errado mesmo.

Melhor ser.


Imagem: Les feuilles mortes © Remedios Varo

carladias.com

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