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O INSANO >> Carla Dias


Olham para ele abismados, cochichadores ininterruptos de atrocidades pertencentes aos outros. Ele sabe o que eles pensam, não por ser um leitor de mentes ou se encaixar em qualquer cargo sobrenatural. Está claro no olhar deles, na forma como seus corpos recuam, indicando que deles não sairá esforço que seja para ajudá-lo.

Está escancarado, mas ainda assim, somente o insano enxerga.

Ele se comporta elegantemente, curvando-se para reverenciar seu público. Estão ali para conhecer a sua história e depois voltarem para suas casas com a certeza de que a vida que têm é melhor do que a dele. Nestes tempos em que não se sabe mais o que é loucura e o que é desespero, ele é o maestro da orquestra que coloca um pouco de lucidez na loucura divagante da solidão que assola o mundo.

Não olhe para o lado, porque não adianta. É a solidão acompanhada, caros espectadores! É o que lhes resta, depois de tanto esforço para se resguardarem do que mesmo?

Do que é dolente. 

O mentecapto fica em silêncio, até que o último convidado esteja sentado, a plateia completa. Ele usa um fraque confiscado em um brechó. Seu chapéu, por mais surrado que esteja, dá a ele o ar grave de quem sabe mais do que qualquer um dos presentes. É assim que faz com que eles o temam, ao menos o suficiente para que não falem com ele, depois do espetáculo. Para que ele saia do palco, dramaticamente, e ninguém conteste a sua insanidade, depois de alguns minutos de conversa.

O espetáculo... 

O desiquilibrado é mundialmente conhecido. Antes, havia santos ocupando este lugar, e os psiquiatras resolviam boa parte das questões oferecendo remédios tarja preta, estancadores de transtornos depressivos, verdadeiros milagreiros capazes de colocar o sofredor mais insone para dormir ou se alegrar.

Ainda que seja assim: desbotado.

Até chegar a rotina e os corpos dos clientes não aceitarem mais engolir comprimido com um terço de copo de água. 

Qual é o tamanho do copo? Informação é poder.

A verdade é que ele não faz nada de extraordinário. Sua fama vem da falta de emoção dos espectadores, do insosso no qual embebem a própria realidade. Acredita que melhor é prestar esse serviço, não pelo sucesso, que é inevitável, já que o possível-impossível esgota rapidamente a bilheteria. Por si mesmo, para manter a sua identidade, ela que tem sido esculpida com a voracidade de quem não quer ceder ao ao vazio que se instalou naqueles que escolheram assistir, em vez de subir ao palco.

Senta-se no meio do palco vazio. O evento de hoje é em um teatro pequeno, o que o agrada muito, depois de tantos estádios e milhares de pessoas o assistindo por telões, comprando souvenires com o seu rosto estampado neles, uma apresentação em um pequeno teatro lhe parece acolhedor.

Senta-se no chão e fica em silêncio durante muito tempo. O burburinho é inevitável, assim como o som das poltronas a amaciarem a inquietação dos seus usuários. Não consegue parar de pensar no poder que tem, mesmo sem deseja-lo, ter buscado por ele. Por que concedem a ele esse benefício que tanto mal faz aos próprios?

Está sob centenas de olhares.

Quando era mais jovem, pensava que se daria mal na vida, porque era meio desiquilibrado, desatinado mesmo. Vivia ensandecido com o que aprendia, as histórias que escutava, as injustiças que queria desfazer e os pecados que adoraria cometer. Aliás, foi cometendo boa parte deles que chegou ali, naquele palco. Não que estar ali o faça feliz, porque ele pode ser louco, mas não é idiota. Não toma por felicidade ter sido eleito como a nova dependência mundial.

Está mais velho, cinquenta e alguns anos, os cabelos grisalhos. Dizem que eles lhe caem bem, e ele até acredita, mas desacreditando, porque enxerga neles os anos que se atreveram a passar sem informá-lo. 

Mas é assim: tira o chapéu e as pessoas aplaudem com animação. Depois, faz um sinal e todos se calam. Sugeriram maquiagem, máscaras, adereços que ele não aceitou usar, em uma tentativa de preservar um pouco da sua verdade. Prefere assim mesmo: cru. Desse jeito mesmo: nu de alma. É isso o que as pessoas procuram ali. É por isso que elas olham para ele, abismadas, narradoras irreverentes de atrocidades que acreditam que ele cometa, enquanto as próprias as coreografam para flutuarem na sua rotina. Ele, o comprimido da vez.

Sim, há uma história triste por trás da loucura que decidiram que era dele. Para ele, essa tristeza é amplificada a cada apresentação. Pensou em deixar o palco, mas se deu conta do motivo que o levou até ele: conexão.

O louco fala sobre o que as pessoas não sabem mais versar, de tanto que se afastaram da própria humanidade. Ele ganha a vida dizendo a milhares, milhões de pessoas o que sente, provocando nelas da inveja ao nojo. Claro que ele sabe fazê-lo, maestro que é das emoções que o invadem, constantemente. Óbvio que ele tem talento para cutucar as almas empobrecidas de seus espectadores que esperam mais nada da vida, porque acreditaram que têm de apenas esperar. Não entenderam que era preciso agir, sentir, viver, e então ter pelo o que esperar.

Gostam de quando ele fala sobre processos: é preciso se demorar um pouco mais no processo. Porque é nele, em todos os seus esconderijos e desvios, que o contentamento não se veste de prazer esquecível, destinado a ser moldado, até perder a identidade, a importância, tornando-se mais uma história colecionada, apenas porque é preciso que haja assunto para apresentar, durante conversas esquecíveis.

Não conseguem aceitar a compreensão sobre o aprofundamento dele: tem aquilo que dói, do começo ao fim, mas ninguém percebe que é dor e chama de incômodo, disfarça. É dor sim! Lateja que é o diabo e o melhor é saber do que se trata, não ignorar a sua vibração.

Ele acha que loucura é evitar a dor, matéria-prima da existência. O que dói vem acompanhado de sorrisos e ironias, de alguns passeios pelos deleites que o ser humano tanto aprecia. Hostil na sua lucidez, mas permite que se diga, naquele momento em que nada faz sentido: é isso... apenas isso... nada mais que isso. 

É um alento melancólico, mas alento.

Aplausos e fim de espetáculo. Não é impressão, não. É isso mesmo... ele fez nada que se possa chamar de inovador. Na verdade, pegou uma das necessidades mais brutais e humanas e a vestiu, expondo-se como os controladores disso e daquilo já não sabem mais fazer.

Sentiu o que vive e contou a eles como era.

O insano, celebridade entre os consumidores de esquemas, vantagens, tributos nada merecidos, que engolem seus comprimidos acompanhados por uma boa dose de Cognac Remy Martin Louis XIII. Engolem sua solidão com o tempo que passaram ali, sentados em uma plateia, observando o insano pulsar uma vida que neles está adormecida. Antes de chegarem em casa, passam na farmácia para as compras da semana, uma lista de itens essenciais, que ajudam a suportar o que falta por ser ignorado.


Imagem: Man pulling a harrow © Vincent van Gogh

carladias.com

Comentários

branco disse…
carlinha...como não ficar deslumbrado com suas crônicas, com seus sentimentos?...quem não desejaria ser louco o bastante ou o maestro da orquestra do titanic?...mais uma vez caiu meu queixo, mais uma vez me identifiquei. qualquer adjetivo (elogiosos) seria pequeno e vulgar. me contento em reler e reler e reler....
Zoraya Cesar disse…
Carla, esse seu enredo deu voltas em minha cabeça. Qd vi, estava relendo de cima pra baixo. E fez todo o sentido. Acho q vc inverteu meus sentidos com essa escrita. Aliás, seus textos fazem isso, mexem com a gente.
Que primor! "... ele é o maestro da orquestra que coloca um pouco de lucidez na loucura divagante da solidão que assola o mundo." Sim, o louco, espécie de bode expiatório da civilização.
Albir disse…
A lucidez do seu louco assusta e encanta. E a gente alterna entre o palco e a plateia.