UM PAPO COM SÃO PEDRO E SÃO PAULO >> Sergio Geia

 


De um lado vejo Pedro. Do outro, Paulo. 
 
O velho Pedro segura uma bíblia na mão direita. Ele a tem próxima à cintura, como se fosse um caderno. Me lembra um estudante despreocupado indo pra escola. Na outra mão ele traz as chaves do Reino dos Céus. Procuro um cajado, cadê o cajado, Pedro? Não há cajado. Seu semblante é leve, está zen, bem zen, passa a serenidade dos grandes líderes, embora um pouco pálido. 
 
Paulo também tem uma bíblia nas mãos. Diferente de Pedro, ele a traz junto ao coração, como se fosse um objeto precioso e de amor. Vendo a cena de Paulo e sua bíblia, me vem à mente o tio Nilson, Nirsão pros irmãos. Certa vez ele me encontrou numa dessas festas de fim de ano, era só assim que nos encontrávamos. Entre discussões fervorosas sobre temas variados — tio Nilson entendia um pouco de tudo e aqueles encontros em família eram ricos de discussões acaloradas — e um gole de cerveja, ele me disse: 
 
— Serginho, você que gosta de ler, tenho um livro lá. Vou lhe dar de presente. Leia. Depois me diga o que achou. 
 
Fiquei curioso. Que livro seria aquele que tio Nilson queria me dar? Ele não me adiantou. Passou o tempo e num outro encontro de família eu descobri: “Paulo e Estevão”, autoria de Francisco Xavier pelo Espírito Emmanuel. 
 
Foi através deste livro dado a mim de presente pelo tio Nilson, que conheci um pouco da vida daquele louco que perseguia cristãos, cujo nome era Saulo, da cidade universitária chamada Tarso. Saulo de Tarso. Que, às portas de Damasco, pela visão do próprio Cristo, converteu-se ao cristianismo tornando-se Paulo. 
 
São Pedro e São Paulo parecem me olhar desconfiados. Eu me aproximo, reparo em suas caras pálidas, calculo se estão zangados. Deveriam? Então sigo o meu caminho. 
 
Na volta, vejo um homem de bicicleta. Ele está parado, bem ao meio dos dois santos, parece que conversam. Abelhudo (todo cronista é abelhudo), tento ouvir. Paulo lhe dá conselhos, pede para ele amar o seu próximo (grande novidade), para se solidarizar com aqueles que passam necessidade, há tanta gente passando fome. Vejo que aponta um morador de rua, deve dizer: veja só, ele mora ao relento, bem ao lado da igreja. 
 
Pedro entra na conversa e mostra as chaves. Gesticula. Como o grande líder da igreja, mostra toda a sua preocupação. Diz que Cristo corre perigo, principalmente dentro de sua própria casa. Os dois santos abraçam o sujeito da bicicleta. 
 
Pensando estar vendo e ouvindo coisas eu fecho os olhos e os esfrego com força, não pode ser. Quando abro só vejo o homem da bicicleta. Ele olha pra cima, faz o sinal da cruz, equilibra-se na bike e segue o seu rumo. 
 
Eu atravesso a rua e paro no mesmo lugar onde minutos atrás estava o homem, bem na frente do grande santuário. Olho para a imagem de Pedro. Olho para a imagem de Paulo. Encaro-os. Digo em pensamento: e aí, não vão aparecer, não? Nada. As imagens são toscas e frias. Se me olham de verdade devem dizer: foi você quem sumiu, amigo, é você quem tem de aparecer. 
 
Vou pra casa com esse pensamento. Antes de chegar, ouço um barulho de chaves. Olho pra trás. Não tem ninguém. 
 
— Bom dia, seu Ivan! 
 
Deve ser impressão, penso, enquanto aperto o botão do elevador.

Comentários

Que crônica mais linda! Amei como você passa dos santos pro tio Nilson, e depois volta pros santos com o livro que ele lhe dá, e continua com este "realismo mágico" até o fim, tudo com uma linguagem clara, num texto muito gostoso de se ler. Obrigada :)
Paulo Barguil disse…
Quem nunca conversou com estátuas, de diferentes materiais, pedindo orientação, ajuda? Quem nunca conversou com a natureza, em diferentes ambientes, suplicando alento, esperança? Quem nunca conversou consigo mesmo, em diferentes fases da vida, buscando coragem, amor?
sergio geia disse…

Alfonsina, querida, grato pelas palavras.

Paulo, amigo, é isso aí, vivemos conversando rsrs
Albir disse…
Os discípulos do amor são suaves como nunca serão os fariseus raivosos e armados.
sergio geia disse…

Grande Albir, disse tudo, meu amigo!

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