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Alice >> Alfonsina Salomão

Kintsukuroi. Há dias a palavra ressoava em sua mente, como um desses refrãos de música sertaneja que grudam na cabeça e voltam cada vez que tentamos mudar o rumo do pensamento. Kintsukuroi. A palavra ia e vinha, tal uma garrafa pet largada na praia e resgatada pelas ondas do mar. Kintsukuroi. Alice mal tinha posto o pó de café no filtro e a palavra já estava na sua cabeça, kintsukuroi. Bebia o café pensando nas coisas a fazer, ia para o quarto se vestir e a danada voltava, kintsukuroi. Punha os sapatos, atravessava a porta de casa, cruzava os olhares das pessoas na rua e o termo reaparecia, kintsukuroi. Isso durava o dia todo, até o momento em que os pensamentos se misturavam desordenadamente em sua cabeça e enfim adormecia, tarde da noite. Já fazia uma semana que os dias corriam assim, à sombra da palavra japonesa, kintsukuroi. Desde que a ouvira pela primeira vez. 
 
Tinha sido na casa de Tomoko, uma amiga sansei que conhecera nos tempos de faculdade. Tomoko havia acabado de voltar do país dos avós, que sonhava visitar desde menina. Entusiasmada com as descobertas que fez por lá, organizou um jantar para os amigos. Entre um gole de sakê e outro, a anfitriã projetou as fotos na parede e discursou sobre cada imagem, compartilhando suas anedotas de viagem com os convidados. Poderia ter sido entediante, não fosse pelo seu excelente senso de humor e pelo generoso barco de sushis disposto no centro da mesa. Em um dado momento, surgiu a figura de um vaso de cerâmica azul esverdeado, trespassado por tortuosas linhas douradas. “Ele foi consertado com ouro”, explicou Tomoko. “É uma técnica que os japoneses aplicam à cerâmica quebrada, chamada kintsukuroi”. O resultado estético era belíssimo. Alice não sabia que um vaso quebrado poderia ser tão bonito. 
 
Logo Tomoko estava discursando sobre outra foto, um grupo de adolescentes vestidas como estudantes sensuais no centro de Tóquio. Quando a exibição chegou ao fim, continuaram bebendo sakê e devaneando. Alice até fumou um baseado, coisa que não fazia há anos, e deu seu telefone para um conhecido de Tomoko que apareceu por lá, um intelectual cheio de si e um pouco sujo, com a barba por fazer e a camisa sem passar. Voltou pra casa alegre, ligeiramente entorpecida. Foi só no dia seguinte que a obsessão começou. Kintsukuroi. 
 
Não dava mais pra ignorar. Quase a contragosto, abriu o computador e teclou a palavra no Google. Apareceu a definição: “a arte de reparar cerâmicas quebradas com ouro ou prata e o entendimento de que a peça é mais bonita por ter sido quebrada. lit. ‘consertar com ouro’.” Até aquela noite na casa de Tomoko, Alice nunca tinha ouvido falar em nada parecido. Pelo contrário, gostava da expressão “vaso quebrado não tem conserto”, que aplicava a vários de seus relacionamentos. Era uma amiga e companheira leal e dedicada, até a hora em que se decepcionava. Aí, não tinha mais jeito. Sentindo que era impossível remendar os cacos, se afastava e se esforçava para não pensar mais na relação quebrada. 
 
A técnica japonesa lhe abria novas perspectivas. Kintsukuroi. Não apenas era possível emendar o vaso, como ele ficava mais bonito depois! Continuou buscando informações, admirando as imagens das cerâmicas transpassadas por luminosos fios de ouro. Analisava cada imagem longamente, hipnotizada pelo resultado. 
 
 Em meio à suas pesquisas, deparou-se com um site onde os vasos remendados eram comparados com partes quebradas da psique. Ao invés de ignorá-las, estava escrito, era possível acolhê-las e transformar as cicatrizes em ouro. Era esta a alquimia interior. Ainda sem entender direito a relação entre kintsukuroi, o que estava lendo e sua própria experiência, Alice fechou os olhos. Havia algo ali que merecia sua atenção, pensaria nisso outro dia. Escorregou num sono profundo e acordou renovada, como há muito não se sentia.

Comentários

Flavia disse…
Encantada com seus textos! E eu que adorava usar essa metáfora dos vasos... me trouxe una boa reflexão!
Zoraya Cesar disse…
Eu lembro desse exercício, Alfonsina! Só nao lembrava desse seu texto pra lá de bom e instigante! Já te disse q suas heroínas merecem umlivro só pra elas? Que possamos todas ser mestres de Kintsukuroi em nossas almas.
Nádia disse…
De novo tive que fazer uma pausa entre a leitura e o comentário. Vc vem arrasando com essas mulheres. Nessa crônica, em especial, vc usa uma metáfora simplesmente linda. Kintsukuroi. Quem de nós não carrega quedas, dores e maculas que quebram corações e partem almas? Espero que eu consiga consertar as minhas com emendas de ouro.
Ah, escreva muito porque, com certeza, vamos falar de suas mulheres e crônicas-espelho na sua live...
Albir disse…
Que interessante, Alfonsina!
Sua metáfora nos leva numa viagem edificante.
Paulo Barguil disse…
Alfonsina, seu texto nos convida a sonhar, acordado ou não, e a confiar no Universo.
Obrigada querid@s pelos comentários generosos!

- Zoraya, quando vocês me chamaram pra escrever aqui, este texto logo me veio em mente!

- Nadia, estou ansiosa pra nossa live! Esse texto nasceu de um exercício do TP. Antes eu nunca tinha ouvido a palavra Kintsukuroi. Também espero consertar minhas feridas com emendas de ouro :)

- Albir e Paulo: muito obrigada. Se consigo fazer os leitores viajar, mesmo um pouquinho, e ainda por cima confiar no universo, ganhei meu dia!!!