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O FEITIÇO MAIOR QUE O FEITICEIRO 1a PARTE - Zoraya Cesar

O interfone tocou, a campainha aguda e desagradável. Ilana sentiu as entranhas se apertarem, como sempre. Por mais que os procurasse, nunca se acostumaria a esses encontros. 

A empregada, ciente que a irascível patroa não suportava delongas, correu a atender, antes que acabasse levando uns gritos. Segundos depois, apareceu na sala:

- D. Ilana, uma tal Madama Mármore diz que a senhora marcou hora com ela.

Madama Mármore? Empregada idiota. Madame Mormânt. Mande-a subir. E tá dispensada por hoje. 

Nalva amuou com a bronca (também, aquilo era lá nome de gente?). Mas fez o que lhe fora ordenado. D. Ilana não pedia. Mandava. 

Mesmo sendo uma bisbilhoteira profissional, Nalva escafedeu-se tão logo a visita chegou. A visita de nome esquisito causou-lhe arrepios. Mais tarde, contaria às amigas – Nalva contava absolutamente tudo o que acontecia no emprego – que “teve um mau pressentimento”. Falava apenas para se fazer de importante. Não teve pressentimento algum. Teve medo.

A mulher era velha, demais - admirar-se-ia ainda estar de pé. Não espantaria que, no fundo das extensas rugas, houvesse poeira e teias de aranha, como as prateleiras de uma estante secular nunca espanada. Exalava um forte odor de mofo, perfume velho, naftalina. O vestido preto, com babados roxos, cobria com tanta folga o corpo franzino, que os mais antigos diriam (e, no caso, acertadamente) que ‘o defunto era maior’. O que mais atemorizou Nalva, no entanto, foram os olhos da visitante: despalpebrados, redondos, vítreos – como os de um tubarão. 

Ficasse um pouco mais, Nalva presenciaria uma cena que nunca pensara ser possível. D. Ilana, a orgulhosa e arrogante D. Ilana, ajoelhada, beijando a mão coalhada de veias azuis e enormes anéis de pedra da velha. 

- Tia Mormânt! Tia Mormânt! – Ilana arranhava os próprios braços, em frenesi – O encantamento está perdendo efeito. Ontem a desgraçada tentou falar, o idiota do Quirino quase derreteu de amores. 

Os olhos esgazeados, descabelada e descontrolada, nenhum dos empregados reconheceria a patroa fria e autoritária que impunha temor. Quirino também olharia, incrédulo e confuso, para aquela criatura raivosa e espumante, bem diferente da moça que conhecera no hospital. 

Ilana fora enfermeira da esposa de Quirino, que entrara num inexplicável coma após um simples procedimento cirúrgico. Ele não lembrava de tê-la contratado, mas Ilana continuou a cuidar da esposa no home care. Ele também não atinava como, mas, de repente, em poucos dias, apaixonou-se pela enfermeira, amantes de cama, mesa e banho. Todavia, Quirino hesitava em separar-se da esposa inconsciente para casar com Ilana. 

- A senhora tem de me ajudar... - Ela continuava a arranhar os braços quando a velha, com velocidade e força espantosas para alguém tão encarquilhado, segurou-lhe as mãos.

- Chega. Uma gota de sangue e eu não respondo por mim – lambeu os lábios ressequidos, lubricamente – A velhice deixa a gente mais sedenta...

Ilana imediatamente cruzou os braços e afastou-se alguns passos. 

- Eu avisei – disse a velha – Manter o estado hipnótico de um e o estado vegetativo de outro ao mesmo tempo é complicado. Um deles vai sair do controle. Escolha! Tudo é arriscado e tudo tem um preço.

Ilana pagava caro pelos ensinamentos
e orientações da velha feiticeira.

Ilana sabia disso. Sabia muito bem, aliás. Dar uma bolsa de seu próprio sangue e olhar enquanto a velha o bebia foi apenas um dos horrores que fez para conseguir seu intento: que o ricaço sessentão Quirino largasse da esposa adorada, o primeiro e único amor da sua vida, para ficar com a desenxabida Ilana. 

Que contratou a velha Tia Mormânt, descendente de uma linhagem de feiticeiras do Mal tão antiga quanto a primeira oferenda feita pelo homem. Com ela aprendeu a fazer os bonecos vodu, as poções de ervas e os encantamentos necessários para induzir o estado letárgico da esposa e a paixão desenfreada de Quirino. 

Nada, no entanto, no mundo da magia, é simples. Ilana despendia tanta energia, que envelhecia a passos largos. A consciência da mulher lutava para voltar à tona. E o amor verdadeiro de Quirino por ela impedia-o de abandoná-la por completo. Ilana estava ficando exausta. Uma vez casada, com tudo passado para seu nome, teria como pagar suas dívidas com Tia Mormânt em dinheiro. Sempre sai mais barato pagar em dinheiro.

Na dúvida sobre o que fazer, Ilana tomou a pior decisão. 

- Quero manter Quirino sob meu controle. Quero que ele case comigo o quanto antes. Quero que passe tudo para meu nome. Quero que aquela vaca morra. Não aguento mais esse teatro. Eu pago. EU PAGOOO...

Tia Mormânt cruzou as mãos e falou, a voz solene, oca como uma catacumba:

- A lei manda e eu cumpro: se você aceita pagar o preço, não há como voltar atrás. A lei manda e eu pergunto: tem certeza?

- Tenho.

A velha Mormânt sorriu. Para ela, tanto fazia. Sempre sairia ganhando.

Continua dia 23 a 2a e última parte.


Mormânt - túmulo, em romeno



Comentários

Albir disse…
Eis que Zoraya, retornando das férias, me manda de volta às insônias. É tempo de vigílias! Bem-vinda, madama!
Zoraya Cesar disse…
Albir! Obrigada! Tudo o que eu queria era conseguir esse efeito!