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UM AMOR QUE PEDIU PARA SER ESCRITO << Cristiana Moura



Os sons do mundo — são muitos e emaranhados os sons. Sou uma pessoa que deseja, de forma verdadeira e intensa, abaixar o volume do mundo. — Por favor, abaixa um pouco o som; — Ei, abaixa essa TV!; — Porra, está muito alta essa música! São algumas das frases que me acompanham desde a adolescência e se fazem presentes no meu dia a dia nem que seja só em pensamento comigo mesma. Em outras palavras, sou aquele tipo de pessoa que, muitos, facilmente designam: chata.

Então ele diz:
—Minha filha, é porque você é sensível.

Sua fala me acaricia os sentidos. Sua palavras sábias aquietam minha dificuldade de calar. Minha remota e presente infância paulistana ganhou outros ares e liberdade de brincar e andar de bicicleta na sabedoria paterna de acampar. Ele ensina ao mesmo tempo que vive. Ensinou-me que viagem começa não quando a gente chega no destino, mas quando a gente sai de casa. E desta forma aprendi o que muito tempo depois li em filósofos orientais, que o caminho se faz ao caminhar.

Sou dessas mulheres que podem ser chamadas de personalidade forte, mas penso é que sou mesmo é de outro planeta e, embora respire deste ar, me encaixo mal aqui nesta Terra. E meu pai cuida, sorri e acolhe com empatia sua pequena extra-terrestre até os dias de hoje. 

Filho de dona Olga, sergipana de simpatia sem igual, meu pai nasceu em Salvador, cresceu em Aracaju, migrou para Rio de Janeiro, Goiás, Maranhão, São Paulo e por fim aqui pro Ceará onde vivemos todos há mais de trinta anos. Penso mesmo que ele escolheu a cidade para, enfim fincar raiz, pelo nome que diz muito da nossa família — Fortaleza.

Com ele e com dona Neusa, minha mãe, aprendemos juntos, entre aconchegos e desavenças, que cada um de nós é diferente, tem suas singularidades e manias e que, ao mesmo tempo somos um. Nossa família é assim —somos um.

Marco Antonio — minha avó não poderia ter escolhido nome melhor para meu pai. Nome cujo significado é guerreiro inestimável. Posso ver o significado de seu nome, primeiro presente que recebeu de sua mãe, impresso fortemente na trajetória de vida que vem traçando.

Hoje, aos meus quarenta e sete anos, sou a mulher e sou a criança. Por vezes ponho no colo meu filho já adulto, meu neto sorrindo ao dizer: vovó, vovó. Por vezes ganho o valioso colo de meu pai. Hoje, dia dez de agosto, é seu aniversário. De alguma forma é também meu, de meus irmãos e de nossos filhos.

Ouço, novamente, sua voz em acalanto:

— Minha filha, é porque você é sensível!

Como não amar?

— Pai, eu te amo muito e um amor assim, pediu para ser público, pediu para ser escrito.

Comentários

Unknown disse…
Que lindo!! Estou emocionada 😍
Carla Dias disse…
Que lindeza de sentimento. Que lindeza de texto.
Albir disse…
Provavelmente ele soube construir a sensibilidade da filha sensível.